Nesta semana, o Ministério da Agricultura encaminhou uma nota ao Ministério da Saúde em que questiona orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira, principalmente o alerta para que sejam evitados alimentos ultraprocessados e, também, haja a diminuição do consumo de produtos de origem animal. Segundo a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é algo que precisa ser exposto de maneira diferenciada.
A postura provocou críticas por parte de vários profissionais de saúde e a reportagem do Bom Dia conversou com nutricionistas de Erechim para saber mais detalhes em relação ao Guia Alimentar.
A coordenadora do curso de Nutrição da URI Erechim, Vivian Polachini Skzypek Zanardo, pontua que o Brasil tem cerca de 36,7% dos domicílios em situação de insegurança alimentar e nutricional, de acordo com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017/2018. “O Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) e Conselhos Regionais de Nutricionistas (CRN), a Associação Brasileira de Nutrição (Asbran), a Federação Nacional dos Nutricionistas (FNN) e a Executiva Nacional de Estudantes de Nutrição (ENEN) reconhecem o caráter científico do Guia Alimentar para a População Brasileira, seu alinhamento com recomendações internacionais de promoção da alimentação adequada e saudável, sua importância para o exercício profissional do nutricionista e do TND e seu valor para a sociedade brasileira”, assinala.
Na opinião da nutricionista Mayara De Carli, o Guia, no formato que está organizado no momento atual, é suficiente para alertar a população quanto aos benefícios de uma alimentação mais saudável e com menos itens ultraprocessados.
Os alimentos ultraprocessados são formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido, proteínas), derivadas de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modificado) ou sintetizadas em laboratório com base em matérias orgânicas como petróleo e carvão (corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e vários tipos de aditivos usados para dotar os produtos de propriedades sensoriais atraentes).
Nesse sentido, Vivian frisa que a conscientização sobre essa categoria de alimentos é importante pois possuem composição nutricional desbalanceada, o que poderá estar relacionada com várias doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). “São, com frequência, ricos em gorduras ou açúcares e geralmente apresentam alto teor de sódio por conta da adição de grandes quantidades de sal; e fabricados com gorduras hidrogenadas para que tenham longa duração e não se tornem rançosos precocemente. Além disso, tendem a ser pobres em fibras e também em vitaminas, minerais e outras substâncias com atividade biológica que estão naturalmente presentes em alimentos in natura ou minimamente processados”, explica.
Reflexos no organismo
O Plano de Ação da Organização Pan-Americana da Saúde - OPAS (2014) descreve os fatores mais importantes para promoção de ganho de peso/obesidade e doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) por meio de publicações confiáveis, da Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) e Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer. “No trabalho, concordam que a alimentação desbalanceada com ingestão elevada de produtos pobres em nutrientes e ricos em açúcar, gordura e sal, é um dos fatores que promovem o excesso de peso, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, elevação de colesterol e triglicerídeos, alguns tipos de câncer, entre outras doenças que podem atingir indivíduos de todas as faixas etárias”, declara a professora da URI.
Mayara acrescenta que a ingestão elevada de alimentos ultraprocessados, além de obesidade e hipertensão pode prejudicar nas alterações nos exames de sangue, causar indisposição, sono irregular, favorecer no desenvolvimento de intolerâncias e alergias alimentares, sobrecarregar os rins e o fígado e a baixa ingestão de fibras, nutrientes como vitaminas e minerais que são muito importante para o bom funcionamento do corpo.
Itens mais consumidos
São exemplos de alimentos ultraprocessados: biscoitos recheados, “salgadinhos de pacote”, refrigerantes, “macarrão instantâneo”, sorvetes, balas e guloseimas em geral, ‘cereais açucarados’ para o desjejum matinal, bolos e misturas para bolo, ‘barras de cereal’, iogurtes e bebidas lácteas adoçados e aromatizados, ‘bebidas energéticas’, produtos congelados e prontos para aquecimento como pratos de massas, pizzas, hambúrgueres e extratos de carne de frango ou peixe empanados, salsichas e outros embutidos.
Cuidado da alimentação desde cedo
Segundo a coordenadora de Nutrição da URI, a alimentação saudável deve ser orientada e incentivada desde a infância, e, também, planejada com alimentos de todos os grupos alimentares, de procedência segura e conhecida, visando a prevenção da obesidade, sendo este um fator de risco para várias Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT).
Do mesmo modo, Mayara ressalta que todos esses cuidados contribuem para um envelhecimento saudável. “Assim, nosso organismo pode ter a quantidade necessária de nutrientes para fortalecer o sistema imunológico, manter a musculatura e ossos fortes para uma melhor locomoção. Vale lembrar a importância de evitar o consumo elevado de medicações diárias, lembrando que precisamos ingerir a quantidade de água necessária e praticar exercícios diários para uma ótima saúde”, alerta a nutricionista.
O que é o Guia?
O Guia é um documento oficial que aborda os princípios e as recomendações de uma alimentação adequada e saudável para a população brasileira, sendo um instrumento de apoio às ações, dos profissionais nutricionistas, para educação alimentar e nutricional (EAN) no SUS e também em outros setores, com objetivo de orientar a população sobre a alimentação adequada e saudável, visando à promoção, manutenção e recuperação da saúde, assim como a prevenção e tratamento de agravos relacionados à alimentação e nutrição.