"Too Young To Drink" (jovem demais para beber) é uma campanha que ocorre anualmente com o intuito de informar e conscientizar as pessoas quanto ao consumo de álcool durante a gravidez e o efeito das substâncias alcoólicas para o desenvolvimento embriofetal. Nesse ano, devido à pandemia, o evento com apoio da Sociedade Brasileira de Genética Médica (SBGM), aconteceu na terça-feira (8) e quarta-feira (9) de forma on-line e gratuita. Estudantes e profissionais da área da saúde foram o público principal.
Em entrevista ao Bom Dia, a médica geneticista, professora e diretora da SBGM, Débora Gusmão Melo, relatou que ontem foi o Dia Internacional de Prevenção e Conscientização em relação aos transtornos causados pelo uso do álcool na gestação. A data reforçou o alerta sobre a campanha internacional que chama a atenção para os problemas que podem ocorrer no feto a partir da ingestão de álcool. “Diferentes trabalhos mostram que entre 7 e 40% da população de gestantes, consome álcool. Essa variação é grande pois depende do lugar em que foi feita a pesquisa, do método que foi utilizado para verificar se a gestante estava bebendo ou não, entre outros aspectos”, comentou Débora, citando que todos conhecem pessoas que, mesmo estando grávidas, consumiram álcool em algum momento e não achou que isso fosse um problema tão importante.
Principais impactos
Conforme a especialista, o álcool é uma substância chamada de teratogênica – que pode ser física como o raio X; química como o álcool; e também, biológica, como o vírus Zika, por exemplo. “Se a mãe tem contato com essa substância na gravidez, pode prejudicar o desenvolvimento do feto. Por isso que no caso do Zika, a criança pode nascer com microcefalia. No que se refere ao álcool, a mãe que bebe durante a gravidez, coloca em risco o desenvolvimento do bebê dentro do útero”, alertou, reiterando que esse risco é muito mais expressivo em relação a formação do sistema nervoso central – cérebro, embrião e feto - sendo que o álcool é capaz de interromper o desenvolvimento das células. “Ao ser analisado quimicamente, o álcool é uma molécula muito pequena. Então, logo depois que uma mulher bebe, o líquido atravessa a barreira placentária e o líquido amniótico, em que o bebê está, fica impregnado de álcool cerca de 10 a 15 minutos após a ingestão”, explicou a médica.
Do mesmo modo, os impactos estão muito mais associados à idade da gestação do que à idade da mulher. Nesse sentido, é mais perigoso beber no início da gestação do que no fim. Do mesmo modo, não há uma dose considerada segura e isso leva em conta, ainda, o metabolismo de cada mulher.
Fatores relacionados à ingestão de bebidas
O ato de beber está relacionado a diferentes situações. A geneticista reforçou que há pessoas que utilizam a bebida como um mecanismo de enfrentamento às dificuldades do cotidiano ou, também, como uma ferramenta de socialização. “Temos uma “cultura” de beber para comemorar e socializar. Esse hábito contempla todas as mulheres, de diferentes faixas etárias e classes sociais. Contudo, algumas pesquisas mostram que, durante a gravidez o consumo de álcool é maior quando a pessoa está numa situação de vulnerabilidade social”, pontuou.
Mudança de hábito
Muitas vezes as mulheres já bebiam antes de engravidar e a proposta é uma mudança de hábito a partir da gestação. “Toda modificação é difícil, desde a alimentação ou o próprio consumo de álcool. Contudo, é algo que precisa ser observado e o primeiro passo é se conscientizar sobre o problema. Às vezes as pessoas não tem a real consciência que o álcool é tão prejudicial à saúde. Ele aumenta os riscos de problemas e toda mãe não quer colocar seu filho nessa situação”, ponderou.
Segundo Dra. Débora, sempre que uma pessoa usa drogas - legais ou ilegais -, considerando que há alguns medicamentos que não podem ser usados na gestação, o ideal, para aumentar as chances de uma gravidez saudável e de ter um bebê sem problemas de formação, é planejar e verificar se os medicamentos que são utilizados, podem ou não ser prejudiciais ao feto. “O indicado é sempre buscar informações. Esse perigo não deve ser banalizado. Vale, também, um chamamento para que o companheiro e a família, como um todo, apoiem a decisão da mulher grávida de não beber. É um momento muito delicado para a gestante, muitas vezes ela se sente sozinha e há muitas mudanças relacionadas ao corpo. Esse suporte dos familiares é essencial”, ressaltou.
Live nesta quinta-feira
A SBGM também adere à campanha "Too Young To Drink" com a live "Hora da Genética" que acontece nesta quinta-feira (10), às 19 horas, com a médica geneticista, Dra. Lavinia Schuler-Faccini. A explanação pode ser conferida na página na Sociedade Brasileira de Genética Médica no Instagram: @sbgm_genetica.