O mês de agosto, no campo da saúde, remete a algumas áreas específicas e chama a atenção para problemas de saúde. A cor laranja se refere às reflexões e debates em relação à Esclerose Múltipla.
Trata-se de uma doença neurológica autoimune, quer dizer, as próprias células de defesa do organismo atacam o sistema nervoso central e provocam lesões no cérebro e na medula. O médico neurologista de Erechim, Rafael Badalotti, explica que a causa ainda é desconhecida e se torna foco de muitos estudos no mundo. “Muito tem se falado sobre a relação da doença com o sol e há pesquisadores que citam, inclusive, a eficiência da vitamina D. Na realidade se constata um índice muito maior de pacientes afetados em regiões de clima temperado e isso condiz com pesquisas sobre a incidência da luz solar e o desenvolvimento da doença”, relata.
Conforme o especialista, a esclerose afeta mais pessoas jovens, principalmente as mulheres, na faixa de 20 a 40 anos. Infelizmente é uma doença que ainda não tem cura e se manifesta por fadiga intensa, fraqueza muscular, depressão, transtornos de humor, irritabilidade, flutuações de tristeza e mania (os quais podem simular um transtorno bipolar), alteração de equilíbrio, de coordenação e disfunção do controle da bexiga, além de disfunção erétil nos homens e diminuição de libido nas mulheres. “Vale ressaltar que a esclerose não é contagiosa, não é doença mental e o tratamento, mesmo que não haja cura, pode atenuar os efeitos e diminuir a progressão da doença”, frisa.
Ao mesmo tempo, Dr. Badalotti destaca que o diagnóstico não é algo fácil. “Isso porque a variedade de sintomas apresentados pelo paciente pode fazer com que ele passe por diversos especialistas e não chegue a um diagnóstico, até procurar um neurologista que poderá fazer o diagnóstico, pois é o profissional mais capacitado”, acrescenta.
De acordo com o médico de Erechim, quando há uma suspeita de esclerose múltipla, a primeira coisa que precisa ser feita pelo paciente é procurar um neurologista para investigar e, assim que possível, iniciar o tratamento. O especialista fará um diagnóstico diferencial com exames como a ressonância magnética do encéfalo e da medula.
Incidência elevada na região
No Alto Uruguai há uma incidência elevada de casos de esclerose múltipla. “Houve um aumento, especialmente nos últimos cinco anos. Isso acontece em razão da questão genética, sendo que a maioria da população é descendente de europeus. Além disso, a região tem clima temperado, onde a incidência costuma ser maior”, justifica.
Nesse sentido, o especialista ressalta que os pacientes de Erechim e região têm acesso fácil ao diagnóstico (seja pelo convênio ou Sistema Único de Saúde). Se for feito de maneira precoce pode mudar toda a vida do paciente.
Tratamentos possibilitam mais qualidade de vida
Dr. Badalotti reforça que os tratamentos medicamentosos, como não são possíveis de curar a doença, buscam reduzir a atividade inflamatória e os surtos (piora visual ou fraqueza, alteração da sensibilidade) ao longo dos anos. “Isso contribui para a redução de acúmulo das incapacidades durante a vida do paciente. Os medicamentos devem ser indicados somente pelo especialista, que irá avaliar caso a caso e definir qual o melhor tratamento”, afirma.
Estrutura na região
O médico enfatiza que a estrutura de atendimento que há em Erechim e em todo o Alto Uruguai, na área da Neurologia, é comparável a qualquer grande centro de medicina no Brasil e exterior. “As mesmas substâncias que são oferecidas no sistema público de saúde, são as que existem em outras localidades”, reforça.
“É uma luta diária”
A porto-alegrense, Margareth Rabenschlag Dias, de 58 anos, que reside em Erechim, convive com a doença há cerca de duas décadas. Em entrevista ao Bom Dia, ela recorda que o caminho até chegar ao diagnóstico, foi longo. “É mais uma avaliação clínica e sintomática, do que propriamente por exames laboratoriais ou de imagem”, pontua.
Margareth conta que foram mais de 10 anos com uma 'doença neurológica não definida'. “Uma fase delicada em que os médicos também ficam ansiosos pois o quanto antes iniciar o tratamento, melhor para nós. A Neurologia é uma área muito complexa e vejo que eles lutam muito. Atualmente sou paciente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre com o apoio suplementar do Dr. Rafael Badalotti e sua equipe”, comenta.
Ela lembra que no passado, saiu de Porto Alegre com uma suspeita da doença e foi residir em Brasília, por conta do trabalho. “Lá fui acompanhada por profissionais do Hospital Sarah. Após alguns anos, retornei à Porto Alegre e comecei a me tratar na PUC. Foi um período angustiante, pois não tinha o diagnóstico confirmado e já estava perdendo movimentos, memória, enfim, aí entrei no grupo de Esclerose Múltipla do Hospital de Clínicas. Um tempo depois retornei a Erechim e continuo sendo acompanhada no município e também na capital do Estado”, cita.
Primeiros sintomas
Margareth recorda que a doença iniciou com dores de cabeça cada vez mais intensas. “Iniciei os exames e foi descoberta uma mancha, que, no entanto, não caracterizava Esclerose. A partir dali, foram feitos outros procedimentos que detectaram um problema no campo visual, em que eu enxergava só a frente e não as laterais. Na sequência, houve complicações na bexiga, denominada urgência urinária. Por isso, aplico botox na bexiga, a cada seis meses, para ter mais conforto e não precisar fazer uso da fralda diária”, relata.
Ela também precisa de antibióticos e outros dois medicamentos (que foi necessário ingressar na Justiça para obter). “A família precisa ser muito orientada para entender todo o funcionamento da doença. É uma luta constante e conto com o suporte do meu marido e filho que auxiliam muito”.
Estudos apontam que a maioria dos pacientes fica muito fragilizada e com depressão. Procuro ocupar a maior parte do tempo e sempre me cuidando. Me esforço muito para me manter bem, seguindo o tratamento e lutando com os desafios.
O alerta
Margareth reitera que tem o sonho de abrir uma espécie de associação para chamar a atenção das autoridades e da comunidade, como um todo, sobre a importância de observar os sinais e fazer o diagnóstico precoce da doença. “Percebo que faltam investimentos em pesquisas específicas para essa doença, as quais possibilitem mais qualidade de vida aos pacientes com Esclerose Múltipla”, observa, citando ainda, que: “sabemos que tem a covid-19, mas vale o alerta sobre outros problemas que necessitam de diagnóstico precoce, para evitar complicações. Do mesmo modo, é preciso dar prosseguimento às consultas e todo acompanhamento das equipes de saúde. Não deixe seus tratamentos, não pode parar por conta da pandemia”, salienta.