Nesse ano, foi desenvolvido por pesquisadores da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas, o estudo Prospective Study of Mental and Physical Health (Pampa). O projeto contou com o apoio de quatro professores do curso, um aluno de Doutorado, entre outros colaboradores. O objetivo foi observar o impacto da pandemia e das medidas de isolamento social, considerando fatores da saúde física e mental.
No período de 22 de junho e 23 de julho, foi disponibilizado um link na Internet com um questionário e promovida uma série de ações para divulgar o trabalho em todas as sete macrorregiões do Estado (conforme a divisão no modelo de Distanciamento Controlado). As perguntas estiveram relacionadas à prática de atividade física, dor lombar, sintomas de ansiedade e depressão e também ao acesso de serviços de saúde.
O professor e integrante do estudo, Eduardo Caputo, relata que a amostra teve 2.231 pessoas, as quais serão contatadas novamente após seis meses dessa primeira coleta e depois de um ano também. “O propósito é comparar os efeitos a curto, médio e longo prazo, considerando, ainda, o período anterior à pandemia, por exemplo, como era a prática de exercícios antes dessa fase”, explicou.
Resultados da pesquisa
Conforme o pesquisador, o que mais chamou a atenção nos resultados foi a redução expressiva da prática de atividades físicas, em torno de 20%. “Isso seria até natural em relação às medidas de isolamento. Contudo, vale salientar que não ocorreu lockdown, como em outros países que, seguiram esse modelo e também registraram números semelhantes sobre os exercícios”, salienta, citando que enquanto o grupo desenvolveu a pesquisa, várias regiões do Estado estavam em bandeira Laranja ou Amarela, com academias em funcionamento.
Durante a análise dos dados, no que se refere à dor lombar, foi um problema reportado por 74,2% dos participantes, sendo que 63,6% já tinham apresentado sintomas previamente à pandemia. Um aumento na intensidade da dor foi observado em 44,6% das pessoas que colaboraram com o estudo. Ainda, foi registrada uma queda de 50% com relação à busca de tratamento para dor lombar. Outro aspecto é que as pessoas tiveram duas vezes mais chances de ter o problema durante a pandemia em relação ao período anterior.
Já no que diz respeito aos sintomas de ansiedade e depressão, houve um aumento de 7 a 8 vezes comparado à fase pré-pandemia. “Quem se manteve praticando atividades físicas ou começou durante o período considerado, teve muito menos chances de ter aumento nos sintomas de ansiedade e depressão. Isso demonstra a importância de se manter ativo em um momento complicado, pois sabemos que nem todas as pessoas tem acesso a academias, um personal ou tem estrutura em casa e tempo para conseguir manter um treino, e muitas tem medo de sair para se exercitar”, reforça Eduardo.
Além disso, fatores como a crise financeira e insegurança quanto ao futuro, também afetaram muito o dia a dia da sociedade como um todo.
O uso de medicamentos (para controlar doenças crônicas) foi relatado por quase 70% dos participantes e em torno de 83% utilizou o serviço de saúde presencial enquanto 42,2% relataram ter desistido, mesmo quando necessário. O principal motivo pontuado foi o medo de se contaminar pelo novo coronavírus. “Já esperávamos, porém, nos chamou muito a atenção pela expressividade dos números”, afirma o professor.
Expectativas a partir do estudo
Levantamentos divulgados em anos anteriores já sinalizaram que o RS era líder em sintomas de ansiedade e depressão. Com base nesse cenário, o grupo de pesquisa estima que possam ser pensadas e aplicadas mudanças. “Esperamos que, com esses dados, associados, ainda, a outras pesquisas, os gestores possam promover iniciativas para que esses efeitos indiretos da pandemia, sejam reduzidos ao menor tempo possível. Entre as ações, está o maior incentivo à atividade física à população como um todo, além de medidas que proponham acesso ainda maior ao tratamento psicológico”, pontua o educador físico.
Orientações
Eduardo orienta que, quem puder ter acesso a uma academia ou a um profissional de educação física, é algo muito importante. Ao mesmo tempo, vale frisar que as quebras de comportamentos sedentários para quem está em home office, são essenciais. “Levantar e caminhar alguns minutos, fazer alongamentos básicos, se precisar ir ao mercado, à farmácia, priorizar a caminhada e não a ida de carro, evitar o elevador nos prédios e, sempre que possível, optar pelas escadas”, destaca.
Nas ruas, ele ressalta que devem ser seguidas todas as recomendações de saúde para evitar a proliferação do coronavírus. “Sabemos que não é muito agradável o uso da máscara durante os exercícios, contudo, devemos levar em conta que é uma questão de saúde pública. Por isso, mais um motivo para as pessoas seguirem esses protocolos. Muitas pessoas assistem a um jogo de futebol na TV, por exemplo, observam os jogadores sem máscara e questionam. No entanto, são situações diferentes, pois o meio privado tem um controle que o público ainda não possui”, alerta.
Aulas on-line
Quando o assunto são os treinos à distância, por meio de vídeos, por exemplo, Eduardo pondera que, se uma pessoa tiver aulas direto com o professor, não há problemas, pois ele poderá conhecer as características do aluno e monitorar o desempenho na atividade e os limites. “Se for acompanhar uma aula aberta, em que o professor não sabe quem está do outro lado da tela, deve observar ainda mais a própria saúde, se tem alguma alteração ou problema, considerar seus limites e saber o momento de parar. Uma leve aceleração da frequência cardíaca é natural, porém, sentir dor e desconforto não é normal”, esclarece.
Ainda pelo sistema de treinos on-line, outra questão válida é buscar um material que seja correspondente à faixa etária do praticante.