Para debater um pouco mais sobre o impacto que o novo coronavírus traz à comunidade de Erechim e região, o Bom Dia promove uma série de entrevistas ao vivo. Nas quartas-feiras o projeto conta com a parceria da Unimed Erechim e do Instituto Unimed.
Ontem (3), o repórter Rodrigo Finardi conversou (de modo on-line) com o médico clínico e intensivista, Vilmar Antônio Spada, e o nefrologista e intensivista, Paulo Roberto Dall Agnol. O tema central do bate-papo foi: “Como as instituições de saúde estão preparadas para atender pacientes graves da Covid-19?”. Esse foi o tema central da live desta semana. Confira a seguir as principais orientações dos especialistas:
Critérios para internação de pacientes com a covid-19 na UTI
Dr. Paulo Roberto Dall Agnol – “Além da questão de que muitos pacientes evoluem para um quadro de insuficiência respiratória, há outras complicações, como instabilidade hemodinâmica; infecções bacterianas graves associadas à ‘infecção covid’; arritmias, entre outras.
Há pacientes covid que podem ter, ainda, o Acidente Vascular Cerebral, crise ou emergência hipertensiva, doença pulmonar descompensada e infarto”.
Organização das UTIs
Vilmar Antônio Spada – “Considerando a covid-19 uma doença nova, que trouxe transtornos a todos os hospitais do mundo, as instituições precisaram se reorganizar de maneira rápida, conforme as possibilidades.
Em Erechim temos uma estrutura boa, pois tanto o Hospital Santa Terezinha como o Hospital de Caridade, além de contar com UTIs Gerais para atender os pacientes de outras doenças, as entidades restringiram áreas para atender somente pacientes com a covid-19.
Se a curva de casos confirmados permanecer como está, o número de leitos pode ser suficiente e acredito que não teremos saturação do sistema”.
Covid-19: pode afetar vários órgãos
Vilmar Antônio Spada – “É uma doença grave. Em torno de 80% das pessoas que contraem o vírus, não tem doença alguma mas podem transmitir para várias outras.
Outros pacientes terão doença e que pode ser leve, com tosse e febre, ou moderada, com dor no corpo, febre e dor de cabeça, por exemplo. Já em torno de 6% dos pacientes, apresentam um quadro grave. O alerta principal é a falta de ar. Se uma pessoa está com esse sintoma ao fazer coisas simples como subir escadas ou caminhar em casa, esse já é um caso que precisa de internação e UTI.
O coronavírus é um vírus respiratório, contudo, quando a doença evolui, se espalha para todo o organismo e se transforma em uma inflamação sistêmica. Sendo assim, passa para o pulmão, pelo sangue e provoca uma inflamação que pode levar a coágulos e destruir pequenas artérias em todos os órgãos. A partir desse momento, a doença se torna multissistêmica e além de inflamar o pulmão, tem o risco de causar fibrose pulmonar, coagulação nas artérias e veias, afetar o fígado, o coração, paralisar os rins, levar a complicações no pâncreas, entre outros órgãos”.
Critérios para alta médica e a situação de recuperados
Dr. Paulo Roberto Dall Agnol - “Os pacientes que ficam por muito tempo na UTI, com ventilação mecânica, enfraquecem a massa muscular e o organismo como um todo. Por isso, acompanhamos cada paciente, temos um protocolo de retirada de respirador e vamos fazendo de forma gradual, interagindo com o paciente, até que ele consiga se livrar do aparelho. Diante disso, é possível perceber a condição real do ponto de vista de respirar espontaneamente, como está a musculatura.
A partir do momento que conseguir se alimentar e respirar sem auxílio de oxigênio e fazer pequenos movimentos, está apto a ir para casa e prosseguir com a recuperação em casa”.
Pacientes com doenças crônicas e riscos de complicações
Dr. Paulo Roberto Dall Agnol – “Os pacientes com doenças crônicas (sejam elas pulmonares, cardiológicas, renais), além de pessoas com obesidade, idosos e gestantes (com menos intensidade), são os considerados grupos de risco, sujeitos a mais complicações com a covid-19”.
Cuidados dos profissionais de saúde
Dr. Paulo Roberto Dall Agnol - “Nós profissionais integramos um grupo muito exposto à contágios e a transmissibilidade, pois lidamos diariamente com pacientes doentes e outros assintomáticos, mas que podem transmitir a doença.
Por isso, é muito importante utilizarmos os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) de maneira correta e adequada, inclusive no colocar e retirar. Devemos ter um rigor muito maior”.
Olhar especial aos idosos
Vilmar Antônio Spada – “Quanto aos idosos, é sabido que, ao envelhecer, os órgãos do ser humano funcionam de maneira diferente e tem uma capacidade menor de adaptação. Por isso, os idosos devem se cuidar mais e a família deve estar mais atenta.
Os pacientes jovens que residem com idosos, deveriam usar a máscara dentro de casa, pois a função dela é não transmitir a doença.
A máscara protege muito mais o paciente para não disseminar a doença, do que aquele que não tem a covid-19”.
Cenário do Alto Uruguai
Vilmar Antônio Spada – “A projeção do cenário já mudou várias vezes desde o mês de março. Neste momento, a curva na região está razoavelmente dentro do esperado, o sistema de saúde está conseguindo suportar a demanda, mas talvez no inverno aumente um pouco. Contudo, não visualizo a possibilidade de que o sistema fique saturado e sem condições de atender a todos os pacientes. Vale lembrar que isso não representa o relaxamento dos cuidados”.
Dr. Paulo Roberto Dall Agnol – Nos preparamos para um cenário de maior gravidade e vivenciamos um momento até “positivo” em comparação a outras regiões. No entanto, esperamos um pouco mais de atenção de todos, especialmente nos próximos meses, diante do frio, momento em que doenças respiratórias são mais frequentes”.
Alerta à população
Dr. Paulo Roberto Dall Agnol - “É importante que a população se mantenha cuidadosa, com hábitos intensificados de higiene, uso de máscara, fazendo o possível para não se contaminar. Esses cuidados devem ser contínuos. Percebemos que a população aderiu e segue as orientações. Essa é a chave do sucesso para a não exaustão do sistema.
Outro aspecto que merece atenção é que ao passo que as pessoas estão afastadas dos hospitais, muitas são pacientes com doenças crônicas e estão deixando de procurar atendimento. Contudo, elas não precisam ter medo de procurar os hospitais, o serviço de saúde de modo geral, pois estão sendo tomados muitos cuidados para separar os possíveis casos de covid-19 de outros pacientes. Por isso, para evitar riscos de adoecer, é fundamental manter os quadros de saúde estabilizados.
As casas de saúde estão trabalhando e é necessário que as pessoas não retardem a ida ao médico. As cirurgias eletivas e os exames laboratoriais estão mantidos, observando as normas de segurança”.