A pandemia do novo coronavírus (covid-19) exige uma série de ações de prevenção para frear a disseminação da doença. São cuidados com higienização pessoal, dos ambientes, alimentos, uso de máscara, distanciamento social, que tem relação direta com a natureza e impacto em outras esferas e serviços da sociedade, como por exemplo, o consumo e o tratamento de água.
Estiagem
Segundo a bióloga, Claudia Santin Zanchett, que trabalha na 11ª Coordenadoria Regional de Saúde e coordena as ações do programa Vigiágua (RS) na região, o Alto Uruguai está vivendo uma longa estiagem, uma das maiores dos últimos anos. “Que está afetando de forma contundente os mananciais para captação de água para consumo humano na região, tendo 30 municípios com situação de emergência decretada”, afirma. E acrescenta, “e junto com a estiagem temos o coronavírus (covid-19) chegando e se espalhando pela região”.
Coronavírus
A bióloga afirma que a água é indispensável, neste momento, para seguir os protocolos de higienização para conter o vírus. Como por exemplo, lavar as mãos com agua e sabão. “E essa água precisa ser potável”, diz. Assim como toda água para consumo humano, ingestão, usada na preparação de alimentos e higienização deve ser água potável, deve atender os padrões da legislação brasileira de potabilidade.
Captação
“Nesta realidade tão complexa e nova, precisamos olhar para a nossa água, porque temos uma população de aproximadamente 233 mil habitantes na região, sendo que 60% desse total, isto é, 140 mil pessoas são supridas por água de captação superficial. Isto é, a Corsan capta água de rios da região e faz o tratamento. Sendo um contingente grande de pessoas que dependem da captação da água superficial para consumo”, explica.
Assim, segundo Claudia, 60% da população tem como fonte água de rios para tratamento, 37% captação subterrânea de poços tubulares profundos, e 3% com as próprias fontes superficiais nas propriedades, que não são abastecidas por redes de água, o que dá 8 mil pessoas na região. “Do total dessa população (233 mil pessoas), 95% tem acesso a água tratada, são abastecidos por redes públicas em área urbana e rural, com tratamento conforme a legislação”, afirma.
Avaliação
Na avaliação da coordenadora do Vigiágua, a região tem uma dependência muito grande com a captação superficial de água, em rios, para consumo da população. “E quando falamos em segurança da água para o consumo humano, precisamos enxergar a segurança de todo o processo, desde a captação nos mananciais superficiais, subterrânea, o tratamento adequado, distribuição segura, e a reservação tanto comunitária quanto nas residências, para a água chegar até as torneiras sem transmitir ou levar vírus, bactérias, enfim, algo que possa ser prejudicial para as pessoas, doenças de vinculação hídrica”, explica.
Coronavírus e água
“Neste momento vem a pergunta sobre a sobrevivência do coronavírus na água. É uma realidade nova e de muita pesquisa, mas já temos vários indicativos que na água potável, com desinfecção, com a presença do residual de cloro livre na água, conforme exige a legislação, o coronavírus não é viável, ele é degradado pela ação do cloro. A água potável não teria a capacidade de transmitir o vírus. Mas são estudos que estão sendo realizados e a cada dia estão mudando. É o que temos até hoje”, observa.
Efluentes
Outra preocupação que surge em meio a pandemia do novo coronavírus é a relação do vírus com os efluentes. Claudia explica que há no Estado vários trabalhos sendo realizados com efluentes para pesquisar a viabilidade infectante do vírus nos efluentes. “A partir desses estudos, daqui um tempo, vamos poder precisar a viabilidade ou não do coronavírus ser transmitido por efluentes”, comenta.
Saneamento básico
E, dentro disso, ela relaciona a questão do saneamento básico, que já existe legislação, já tem um “arcabouço” legal muito bom para os municípios trabalhar. “Isso não é novidade, nem surpresa, e há necessidade de tratamento dos esgotos, domésticos, industriais, hospitalares, todos os tipos de efluentes, para que não contaminem o meio ambiente, porque levam junto consigo várias bactérias, são vetores de muitas doenças, que podem infectar tanto o solo como a água se não forem tratados”, observa.
Indignação
Claudia tem um sentimento de indignação ao ver a realidade da região, porque trabalha há 20 anos na área ambiental e não vê avanços significativos, políticas públicas incorporadas e executadas, pensando no tratamento dos esgotos, e a partir disso, a preservação das águas.
“Não olhamos com tranquilidade se 60% da população depende da captação das águas dos rios para tratamento e consumo humano, e, paralelamente, e não há avanços em políticas públicas efetivas de tratamento dos esgotos gerados”, observa.
Exemplos
A coordenadora do Vigiágua afirma que tem exemplos na região, municípios em fase de conclusão da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), como é o caso de Ponte Preta, Três Arroios e São Valentim. “Outros municípios de menor porte adotaram o tratamento primário dos esgotos através de fossas sépticas individuais nas residências”, comenta.
Saúde pública
“Essa questão da saúde já deveria estar muito bem resolvida na região, sabendo que saneamento básico é uma questão básica, tratamento do esgoto e água. Temos muito para melhorar”, destaca. E, acrescenta, o saneamento básico, tratamento de água e esgoto, tem que ser uma ferramenta de proteção à saúde.
Erechim
Ela observa que o maior município da região Alto Uruguai, Erechim, com cerca de 100 mil habitantes, é abastecido por captação superficial, por uma barragem que recebe a contribuição dos rios Leãozinho, Ligeirinho, Campo e do Cravo para formar o reservatório de captação.
E, o Vigiágua trabalha muito de perto a questão da captação através de inspeções sanitárias, tratamento. “E, quando a sede do município desse porte não tem tratamento de esgoto, temos um grande impacto ambiental nos rios da região, mesmo que não chegue diretamente nos rios de captação, mas de forma indireta vai estar, sim, contaminando os mananciais, solo, lençóis freáticos por infiltração, já que o esgoto não tratado pode chegar aos lençóis”, explica.
Futuro
Claudia comenta que o momento é complicado devido à estiagem, e de incertezas em função do coronavírus, que está sendo conhecido pela sociedade. Porém, o saneamento básico, tratamento de água e esgoto, é uma questão muito bem conhecida, que é possível resolver, como o tratamento do esgoto. “Por nós gerados e que não foi resolvido”, diz.