A companhia dos familiares aliada a livros, filmes, afazeres domésticos, vem sendo um cenário comum em muitos lares. Em outros, pessoas que moram sozinhas também procuram preencher o tempo com diversas atividades. Em ambas as situações, contudo, o que permanece é o clima de incertezas, dúvidas e preocupações em relação ao que pode vir pela frente. Afinal, o clima não é de férias, mas sim, isolamento domiciliar, uma medida para tentar conter o novo coronavirus.
Para quem tem crianças em casa, a fase pode ter um desafio extra, mas que pode ser organizado de forma especial. É o caso do preparador físico, Anderson de Lazari, que na companhia da filha Maria Antônia, de oito anos, compartilha risos e muita música. Eles chegam a gravar vídeos nas redes sociais, demonstrando como é possível manter os cuidados de prevenção ao novo coronavirus e em contrapartida, ser leve. Enquanto Anderson toca violão, Maria Antônia já demonstra habilidade ao cantar diversos estilos.
Mudanças na rotina
Mas você sabe o que essa mudança na rotina pode causar ao organismo? E a saúde mental, como fica diante de tantas informações? Para entender um pouco mais sobre esses aspectos, a reportagem do Bom Dia preparou duas matérias especiais. Nesta primeira, a psicóloga, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e Neuropsicologia Infantil, Daniela Crissiane Demski Adário, orienta os principais aspectos que devem ser observados nesse período.
Segundo ela, o ser humano depende das relações e o isolamento o priva de algo essencial: o contato social. “É uma situação nova, que não temos controle, e a sensação de estranhamento é natural. Ainda mais nessa situação em que tudo aconteceu tão rápido, não deu tempo de processar e compreender a situação temporária que estamos passando”, assinala, citando que entre os sinais que podem aparecer nessa fase, incluem o medo e a preocupação com sua própria saúde e com a saúde de seus entes queridos, além de alterações no sono, nos padrões alimentares, medo paralisante sobre o futuro e o que pode acontecer, dificuldade de se concentrar, ansiedade, raiva, tristeza, piora dos problemas crônicos de saúde e maior uso de álcool, tabaco ou outras drogas. Podem ocorrer, ainda, preocupações com o futuro financeiro, o qual também pode ser um motivo de angústia.
Precauções
Daniela reforça que é importante tomar todas as precauções necessárias que estão sendo divulgadas. Isso faz com que possa se desenvolver um pouco mais de tranquilidade e segurança. “Precisamos encarar a realidade, considerando as medidas de segurança e sabendo que o risco existe e é real. Mas temos que evitar fantasiar muito o que pode vir a acontecer. Isso pode ser um gatilho para o desenvolvimento de um estresse maior do que podemos suportar”, orienta.
Para ela, esse é um momento de cuidado, de proteção da família e principalmente de empatia. É momento de ficar em casa, mas não é motivo de pânico.
Para quem mora sozinho(a)
No caso das pessoas que residem sozinhas, o impacto à saúde mental pode ser maior. Por isso, afirma a psicóloga, é importante que se fique em contato e mantenha uma rede de amigos e conhecidos, pois mesmo isolado é importante manter uma rotina. “Se as autoridades de saúde recomendaram distância física para conter o surto, você pode manter a proximidade digital com redes sociais, telefone. Nessa hora a tecnologia é uma ótima aliada”, acrescenta.
Ela salienta que idosos, especialmente em isolamento social e aqueles com problemas cognitivos, tais como demência, podem se tornar ansiosos, ficar estressados, com raiva, agitados e distanciados durante a quarentena. “Ofereça a eles apoio emocional por meio de rede familiar ou, se não for possível, por meio de amigos ou vizinhos”, alerta.
Para quem trabalha em casa
Neste caso, Daniela reforça que é importante conversar com a família - principalmente se tiver crianças - explicando o motivo de trabalhar de casa e a necessidade de cumprir as tarefas.
“Faça um planejamento do trabalho, de horário e rotina. É importante determinar horas de pausa, almoço. É preciso criar um sistema físico e mental para que o cérebro não faça a associação de lar e descanso que está habituado a fazer. Tente seguir uma rotina corporativa, separe um cantinho para ser o seu escritório temporário e crie um ambiente produtivo para evitar ansiedade”, pontua.
Conforme a psicóloga, a saúde emocional está totalmente ligada à saúde física. Sendo assim, se nesse momento a imunidade baixar, pode ser um problema.
Oriente as crianças e ensine a lidar com as emoções
Quando o foco é o público infantil, a especialista comenta que é fundamental ajudar as crianças a expressarem, de forma positiva, os medos e ansiedades. “Cada criança tem sua própria maneira de fazê-lo. Nesse momento em que as aulas estão suspensas e a rotina de todos da casa mudou, é muito importante dar uma atenção maior aos baixinhos. Algumas vezes, a atividade criativa, jogos e desenhos podem ajuda”, exemplifica.
Segundo ela, as crianças precisam ficar cientes do que está acontecendo. Do mesmo modo, ao perceber que os pais estão estressados e ansiosos, elas reproduzem esse comportamento e acabam buscando mais apego ou sendo mais exigentes com os adultos. “Dê uma explicação condizente com a faixa etária deles. Se seus filhos demonstrarem preocupação, ajude-os a gerenciar suas emoções e a aliviar a ansiedade”, completa.
Dicas para auxiliar a manter o equilíbrio
- Foque nas suas necessidades e envolva-se em atividades que goste e ache relaxante;
- Aprenda exercícios físicos simples para fazer em casa;
- Mantenha o sono em dia e se alimente corretamente;
- Crie uma rotina diária e aproveite para fazer as coisas que você gosta, mas que geralmente, por falta de tempo, não pode fazer (leituras, assistir filmes, dar atenção de qualidade para os filhos, meditação, escrita terapêutica);
- Fique em contato com a família, faça atividades com os filhos, companheiro (a), tais como conversar e aproveitar esse tempo de forma saudável;
- Siga as notícias confiáveis e evite boatos e "fake news" que vão somente causar mais desconforto e dissabor;
- Evite pensamentos negativos.