Em medida extrema a fim de conter a epidemia do novo coronavírus na Itália, que já matou quase 500 pessoas no país com mais de 9,1 mil casos notificados, o governo do primeiro-ministro Giuseppe Conte anunciou na noite de segunda-feira (9) uma série de medidas que começaram a valer ontem (10), como a restrição do deslocamento em todo o território nacional, episódio restrito, até então, ao norte da Bota.
Aglomerações públicas foram proibidas com a recomendação de que as pessoas ficassem em casa. No caso, 60 milhões de pessoas.
A partir do decreto de Conte, o deslocamento entre uma cidade e outra, por exemplo, só se dá com apresentação de formulário e fundamentada justificativa, embasada em questões de saúde ou trabalho. Atividades em casas noturnas, museus, eventos culturais, funerais e casamentos foram suspensas, incluindo o campeonato italiano de futebol.
Enquanto hospitais estão superlotados (há mais de 700 pessoas em unidades de tratamento intensivo) e o transporte público segue em funcionamento, todas as escolas e universidades do país ficarão fechadas até pelo menos 3 de abril.
Para tentar entender melhor os impactos dessas medidas no dia a dia da população, o Grupo Bom Dia entrevistou três erechinenses que moram em diferentes cidades da Itália: Bérgamo, Verona e Roma. Saiba quem são e como eles estão lidando com a situação.
Zé De Lazzari, publicitário e diretor de criação. Mora em Bérgamo.
Exercícios matinais feitos. Mais um capítulo da série Vikings da Netflix conferido. Banho tomado e café da manhã devidamente degustado ao lado da noiva, a publicitária porto-alegrense Fernanda Corso, 28.
O relógio nem bem havia batido 8h de terça-feira (10) e Zé De Lazzari, 36, se preciso, já estaria pronto para entrar em seu carro a fim de percorrer os 30 km que separam sua casa em Bérgamo, próximo à Piazza Sant’Anna na Borgo Palazzo até Pontida, onde está estabelecida a agência na qual o publicitário erechinense trabalha desde abril de 2019 atendendo algumas das maiores empresas da área da saúde na Europa.
A questão, porém, é: hoje (ontem) ele não precisaria ir até o trabalho.
Aliás, desde semana passada, pouco antes do governo italiano classificar a região da Lombardia (onde fica Bérgamo) como ‘Zona Vermelha’, limitando a movimentação de pessoas, Zé, por orientação da agência, poderia/deveria trabalhar em casa, o chamado ‘home office’ ou, ‘smart working’.
Foi dali que ele falou com o Bom Dia, logo após receber via Whatsapp uma foto de um casal de idosos entrando num supermercado local com máscaras de mergulho.
‘Se você só tem a TV como fonte de informação, enlouquece’, resume o erechinense numa alusão ao estado de espírito dos italianos e a repercussão da doença em parte da mídia. ‘É preciso saber aonde buscar as notícias para se posicionar de forma coerente e razoável’, resume.
Embora entenda o sentimento de consternação geral, De Lazzari é sereno ao observar que o melhor caminho a seguir é obedecer às orientações das autoridades de saúde, entre as quais evitar aglomerações, lavar bem e constantemente as mãos e usar álcool gel (embora tal elemento já esteja em falta, assim como máscaras, o que, talvez, explique a ação dos idosos citados no começo do texto).
‘Bérgamo está deserta como eu nunca havia visto. Cena que se repete pelo país inteiro. No entanto, como a agência se preparou para uma situação como essa, e eu há tempos já faço trabalhos remotos, confesso que, inicialmente, não fui tão impactado. O equivalente se dá, também, com minha noiva’, pontua. A previsão é de que o modelo de ‘smart working’ siga inalterado por, pelo menos, mais duas semanas.
Embora descarte qualquer possibilidade de voltar de forma definitiva ao Brasil em razão do novo coronavírus, Zé De Lazzari pondera que o surto pode fazer com que ele reveja sua intenção de visitar, em abril, a família, que mora na Capital da Amizade.
Bruna Mazzonetto, professora de italiano e consultora em cidadania italiana. Mora em Verona.
A professora de italiano e consultora em cidadania italiana Bruna Mazonetto, 31, chegou a Verona, na região do Vêneto, em janeiro de 2020 depois de conquistar uma bolsa de estudo para realizar curso de especialização na área de didática da língua italiana voltada a estrangeiros, com previsão de conclusão para dezembro deste ano.
Mal sabia ela, contudo, que sua rotina seria alterada poucos dias depois do desembarque na terra de Romeu e Julieta em razão de um vírus que tem causado mortes ao redor do globo, promovido a oscilação de mercados e fechado fronteiras, como a da própria Itália. Apesar do alvoroço, Bruna garante estar tranquila. ‘Confio nas medidas tomadas pelo governo local. Tenho ciência de que é preciso obedecer aos protocolos e orientações. A vida segue’, diz ela que, em razão da viagem, tem mantido seu serviço como consultora de forma remota.
Ao Bom Dia, Bruna explicou, via Whatsapp, que a última aula presencial da especialização aconteceu em 22 de fevereiro, quando sua Universidade passou a orientar os alunos para que passassem a estudar ‘de casa’, via módulos de conteúdo oferecidos online. ‘Eu já não tinha muitos motivos para ficar toda hora na rua, embora, claro, quisesse interagir com a cultura e tudo o mais. Agora, porém, com a restrição de movimentação, passarei mais tempo em casa resolvendo, por aqui, minhas atividades relacionadas aos estudos ou às situações de cidadania. Há muito o que estudar, ler, pesquisar e fazer. Tenho preenchido bem o meu tempo e, muitas vezes, nem vejo a hora passar’, pontua a jovem.
Questionada se pensa em antecipar seu retorno ao Brasil em razão do coronavírus, Bruna descarta a possibilidade e, com voz serena, reforça: ‘Não tenho medo. Vou continuar aqui ciente dos cuidados que devo tomar a fim de concluir os meus projetos. Penso que é assim que as coisas devem ser encaradas’.
Andressa Collet, jornalista. Mora em Roma.
No primeiro dia de quarentena geral na Itália nesta terça-feira (10), a jornalista Andressa Collet, 40, que trabalha na rádio do Vaticano e no canal oficial de notícias da Santa Sé (Vatican News), fez o trajeto de casa até a primeira estação que a conduziria ao local diário de labuta a pé. Não porque ela não quisesse utilizar o transporte público, mas porque perdeu o ônibus – oportunidade que a permitiu experienciar uma ‘diferente Roma’, deserta (como num domingo de manhã) e mais restritiva, embora não menos bela.
Em suas redes sociais, Andressa – que também manteve contato com a reportagem do Bom Dia – contou um pouco do que sentiu. Reproduzimos alguns trechos. Confira:
‘Os passarinhos ainda cantam lindamente, ainda mais no silêncio da manhã, antecipando a primavera que a gente espera que chegue logo em todos os sentidos. A caminhada também me ajudou na questão do ‘corpinho’, visto que as academias estão fechadas. E não só: todos os espaços que podem, de alguma forma, agregar e aglomerar pessoas estão proibidos de abrir. Isso faz parte do novo decreto do governo italiano que saiu ontem, que acabou estendendo as severas restrições que, no domingo, eram só pra região norte do país. Várias determinações que não permitem deslocamentos entre cidades e limitam ao mínimo aqueles de todo dia, por exemplo, ir ao trabalho ou ao mercado. Sempre com a distância mínima de um metro! Além das já conhecidas, de procurar ser mais respeitoso conosco e com o próximo, no sentido de seguir as condições mínimas de higiene. Práticas que se a gente não tinha antes, tá precisando incutir na rotina ou precisando reforçar.
Ontem mesmo, quando saiu o novo decreto à noite, o pai me ligou e já conversamos bastante. Tranquilizei ele e o quero fazer com muita gente que tem me procurado. O lado bom disso é que amigos e conhecidos acabam nos redescobrindo por aqui!
A família vai bem, gente, obrigada, de coração! Com as escolas fechadas até 3 de abril, o Leo (seu filho de dois anos) está em casa com o pai (o jogador Marcelo Vereia), porque inclusive o campeonato de futsal e os treinos foram cancelados. Todos os dias agradeço por podermos nos organizar desse jeito com o Leo, estando o Marcelo em casa e eu tendo que trabalhar fora.
O momento é, sim, delicado, mas não de pânico. A grande preocupação é diminuir o número de infectados e, assim, as internações, porque sabemos que esse vírus tem um alto índice de contágio e baixo de mortalidade. Esse é o grande problema, com hospitais sem capacidade pra tanto. Mas a vida continua, gente. Numa nova versão”.
A partir desta quarta-feira (11), Andressa não precisará ir até o Vaticano para exercer seu ofício; o trabalho será de casa, na mesma modalidade adotada por Zé e Bruna. Em tempo: a Basílica e a Praça de São Pedro foram fechadas aos turistas e visitas guiadas até 3 de abril, ‘para evitar a propagação do coronavírus’, anunciou ontem (10) a Santa Sé, em comunicado.
Mantenha distância!
O Decreto em vigor na Itália prevê que as pessoas fiquem a pelo menos um metro de distância das outras em mercados e restaurantes.
A evolução do surto de coronavírus*
Tudo começou em Wuhan
No apagar das luzes de 2019 (31 de dezembro), a China notificou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre uma misteriosa pneumonia em Wuhan, de cerca de 11 milhões de habitantes. Especialistas de todo o mundo começaram a tentar identificar o agente causador. Supõe-se que ele tenha se originado num mercado de frutos do mar na cidade, que logo foi fechado. Inicialmente foi comunicado que havia cerca de 40 pessoas infectadas.
Primeira morte na China
Em 11 de janeiro de 2020, a China anunciou a primeira morte causada pelo novo coronavírus. Um homem de 61 anos, que havia feito compras no mercado de frutos do mar de Wuhan, morreu de complicações por causa de uma pneumonia.
Vírus atinge países vizinhos
Nos dias seguintes, países como Tailândia e Japão começaram a relatar casos de infecções em pessoas que haviam visitado o mesmo mercado de Wuhan.
Transmissão entre humanos
Pesquisadores se concentraram em descobrir como o agente é transmitido. Os coronavírus são zoonóticos, ou seja, podem ser passados de animais para pessoas. Alguns coronavírus podem ser transmitidos por tosse e espirros. Em 20 de janeiro, foi confirmado que o vírus pode ser transmitido diretamente entre pessoas.
Milhões sob quarentena
Em 23 de janeiro, Wuhan foi colocada sob quarentena, na tentativa de limitar a propagação do vírus. O isolamento, estendido para 13 outras cidades, afetou 36 milhões de pessoas.
Coronavírus na Europa
Em 24 de janeiro, as autoridades da França confirmaram três casos do novo coronavírus dentro de suas fronteiras, marcando a chegada da doença na Europa. Horas depois, a Austrália confirmaria que quatro pessoas foram infectadas.
Primeira morte fora da China
Autoridades das Filipinas informaram no dia 2 de fevereiro de 2020 que um homem de 44 anos morreu no país vítima do coronavírus, marcando assim a primeira morte relacionada à doença fora da China.
Mortes superam Sars
Em 9 de fevereiro de 2020, a China informou que o número de mortos por Covid-19 havia chegado a 811, ultrapassando as 774 vítimas do surto de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), também causada por um coronavírus, entre 2002 e 2003.
Vírus chega ao Brasil
O novo coronavírus se espalha por mais de 40 países e territórios, mata mais de 2.700 pessoas e infecta mais de 80 mil, das quais cerca de 30 mil se recuperaram, segundo números de 26 de fevereiro. Nessa data, o governo do Brasil confirma o primeiro caso no país: um homem de 61 anos que viajou à Itália a trabalho.
Itália fechada
O governo italiano impôs restrições ao deslocamento de todos os 60 milhões de cidadãos e proibiu aglomerações públicas para tentar conter o coronavírus, a partir do dia 10 de fevereiro – sendo que medida semelhante havia sido tomada dias antes isolando determinadas regiões ao norte do país. Habitantes só podem deixar área em que vivem com justificativa.
* Com informações da DW e BBC.
Saiba mais
# 80% dos casos da doença são leves - pessoas com dores no corpo, febre ou tosse. Alguns podem desenvolver pneumonia pouco grave. Pacientes mais velhos, com outras doenças como diabetes, câncer ou do sistema cardiovascular correm mais risco de desenvolver quadros mais graves e mais risco de morte.
# Mais de 20% das pessoas acima de 80 anos morrem de Covid-19, anunciaram os especialistas na segunda-feira (9). Segundo a OMS, 13% dos pacientes que têm doenças cardiovasculares vêm a falecer, assim como 9% dos que têm diabetes.
# No Brasil, o total de casos confirmados da doença até às 14h de ontem (10) era de 25, sendo que o RS registrou seu primeiro paciente positivo nesta terça-feira, no município de Campo Bom. Não há registro de morte causada pelo vírus no país.
# A Itália é o país europeu mais afetado pelo coronavírus, sendo que o governo alocou cerca de 10 bilhões de euros para impulsionar sua economia e combater os efeitos da quarentena, além de anunciar a suspensão dos pagamentos de hipotecas.