Confesso que não sei exatamente o que irei encontrar; sei, contudo, que preciso ir - e, por isso, vou de coração aberto.
Retornar ao campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, construído pelos nazistas na Polônia ocupada durante a Segunda Guerra Mundial, será, creio, como voltar ao local onde, de uma maneira ou outra, comecei, há exatos cinco anos, a reescrever minha história profissional e pessoal.
O peso que o local carrega - palco da morte de 1,1 milhão pessoas assassinadas pelos alemães e seus colaboradores -, faz, no mínimo, que você reveja conceitos. Reflita sobre o mau e os riscos da intolerância e da indiferença, ontem e hoje. Deixe de lado coisas banais e passe a valorizar mais quem você ama. Obviamente, a experiência não te torna ‘perfeito’; ninguém é perfeito.
É assim, portanto, que volto ao Velho Continente.
Além do Jornal Bom Dia, devo utilizar outros canais e plataformas (Twitter @salusloch e Instagram @salusloch), além do Caderno de Sábado do Correio Povo, blogs, revistas e as páginas do Museu do Holocausto de Curitiba/PR, para contar um pouco dessa história - que deve ter seu ponto alto na próxima segunda-feira (27), durante a solenidade de celebração pelos 75 anos da libertação de Auschwitz, quando mais de 200 sobreviventes do ‘campo da morte’ estarão presentes, bem como dezenas de lideranças políticas de diferentes cantos do mundo.
Não sei exatamente o que irei encontrar, mas sei que preciso estar lá.
27 de janeiro
O dia 27 de janeiro, além de celebrar, em 2020, os 75 anos da libertação de Auschwitz, também marca o Dia Internacional pela Memória do Holocausto, instituído pela ONU em 2005. Ou seja, é uma data de significado especial, e que atrairá os olhares do mundo, independentemente de ideologias ou credos. Afinal, o Holocausto foi um crime contra a humanidade, e não apenas contra os judeus, seu principal alvo.
A comemoração oficial do 75º aniversário da libertação de Auschwitz, sob responsabilidade do Museu de Auschwitz-Birkenau, ocorrerá no local do antigo campo e, da mesma forma que no 70º aniversário, uma tenda será erguida em frente ao ‘Portão da Morte’, em Auschwitz II-Birkenau.
Conforme a organização do evento, essas são as atividades previstas para a data:
15h30min (horário da Polônia)
- Manifestação de boas-vindas do presidente da Polônia, Andrzej Duda;
- Manifestação de sobreviventes;
- Fala de Ronald Lauder, representante dos ‘Pilares da Lembrança’;
- Agradecimento do diretor do Memorial de Auschwitz, Piotr Cywinski;
- Culto ecumênico.
17h
Tributo às vítimas, no mesmo local, com a presença dos sobreviventes e mais de 50 chefes de estado, e ou, representantes.
História
Criado em 1940 pelos nazistas, Auschwitz é símbolo de terror, genocídio e do holocausto (Shoá, em hebraico). Estabelecido nos subúrbios de Oswiecim, cidade que foi anexada ao Terceiro Reich após a invasão da Polônia (setembro de 1939), a constituição do campo buscou, inicialmente, resolver o problema da falta de espaço nas prisões para trancafiar as massas de poloneses detidas pelos alemães, com destaque aos ‘presos políticos’.
Os primeiros transportes com os encarcerados chegaram em 14 de junho de 1940, vindos da prisão de Tarnów. Auschwitz (nome alemão para Oswiecim), então, era mais um campo de concentração do tipo que Hitler estava montando desde o início de seu governo, em meados de 1933 (Dachau, na Alemanha, foi o primeiro).
Em 1942, contudo, além de servir como campo para concentrar pessoas, a estrutura – a partir da construção de Auschwitz II-Birkenau – se tornou o maior dos centros de extermínio da Segunda Guerra Mundial e palco principal da "Endlösung der Judenfrage" (a solução final para a questão judaica: o plano nazista para assassinar todos os judeus europeus).
1,3 milhões de deportados
Os nazistas alemães deportaram para Auschwitz pelo menos 1,3 milhão de pessoas de mais de 20 nacionalidades. Desse montante, 400 mil foram registrados e encarcerados no campo de concentração como prisioneiros, enquanto 900 mil foram assassinados nas câmaras de gás logo na chegada. Os judeus constituíam 85% de todos os deportados e 90% daqueles que foram assassinados.
1,1 milhão de mortos
Entre 1,3 milhão de deportados de Auschwitz, pelo menos 1,1 milhão foram assassinados:
• 900 mil judeus assassinados nas câmaras de gás imediatamente após a chegada ao campo;
• Dos 400 mil prisioneiros registrados no campo, 200 mil pessoas morreram no local . Eles incluíam quase 100 mil judeus , 70 mil poloneses , 21 mil ciganos , 14 mil prisioneiros de guerra soviéticos e mais de 10 mil prisioneiros de outras nacionalidades.
Libertação:
De agosto de 1944 a meados de janeiro de 1945, os alemães transferiram 65 mil prisioneiros de Auschwitz para serem empregados como força de trabalho escrava de várias empresas nas profundezas do Terceiro Reich. Eles também iniciaram a eliminação e destruição inicial das evidências de seus crimes - entre outros, os registros dos prisioneiros e dos judeus assassinados nas câmaras de gás.
Após a evacuação final, quase 9 mil prisioneiros, principalmente os doentes e exaustos deixados para trás no campo pelos alemães, se viram em uma situação incerta. Aproximadamente 700 detentos judeus foram assassinados no período entre a partida forçada das últimas colunas de evacuação e a chegada dos soldados soviéticos. Em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho entrou na área da cidade de Oświęcim, enfrentando a resistência das tropas alemãs em retirada. Mais de 230 soldados soviéticos morreram. Aproximadamente 7 mil prisioneiros, no entanto, viveram para ver a liberação dos campos de Auschwitz I, Auschwitz II-Birkenau e Auschwitz III-Monowitz. Aproximadamente 500 outros foram libertados nos subcampos antes de 27 de janeiro e logo após essa data.
Para pensarmos - 1
O complexo de Aushwitz é dantesco em sua perversidade. Os campos, contudo, foram erguidos por pessoas, líderes de movimentos políticos que, aos olhos de seus seguidores - e de boa parte dos ‘isentões’ da época - pareciam, em seu início, menos graves.
É importante lembrar que o nazismo, que chegou ao poder através do voto em 1933, ladrava contra o comunismo, os gays e os deficientes, além de ser antissemita e racista - em nome de uma ‘raça pura’. Contudo, ele não falava em genocídio (ao menos, no nascedouro). Perseguia políticos, mas não falava em assassinatos coletivos. Queimava livros em praça pública e censurava as artes, mas não falava em extermínio. Isto posto, temos que a barbárie, desde que enfrentada no tempo certo em relação às práticas comuns dos nazistas, poderia ter sido evitada antes de dominar boa parte do mundo; mas, a indiferença falou mais alto.
Em tempo: Devemos educar contra o nazismo, contra o racismo e contra o discurso de ódio, rejeitando quem enaltece a tortura, inclusive. Devemos educar contra o extremismo de um modo geral, e não apenas contra o holocausto. É também por isso que estou aqui, na Polônia.
Para pensarmos - 2
"As primeiras pessoas assassinadas sistematicamente (pelos nazistas) não foram judeus, mas alemães com deficiência mental e física. Quem participou disso? Médicos, enfermeiros, assistentes sociais, advogados, juízes. Há pessoas que você acha que são altamente educadas, bem treinadas e provavelmente teriam um senso moral. Eles teriam dito que estavam trabalhando para o bem comum, no que foi considerado avanço científico".
Sara Bloomfield, diretora do Museu do Holocausto dos EUA, para o Washington Post.
Em tempo: Conhecimento e títulos, sem o respaldo de princípios morais e éticos que te façam respeitar as diversidades, compartilhar o amor e ter empatia parecem não impedir que mentes tidas como ‘respeitáveis’ deixem de apoiar atos monstruosos liderados por regimes genocidas, independente da ideologia ou ‘causa’ que o sustente.