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Saúde

Antibióticos: uso inadequado pode gerar resistência de bactérias

Infectologista, Vanderlei Madalozzo faz alerta e cita que, aliado à melhor administração dos medicamentos, está o anseio por avanços nas pesquisas e produção de novos produtos

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O principal problema quando se fala em resistência bacteriana, é em nível hospitalar
Por Izabel Seehaber
Foto Divulgação

O que você sabe em relação aos antibióticos? Mesmo com o aumento do controle sobre o uso desse medicamento, por meio da exigência da receita médica no ato da compra, o tema merece cada vez mais destaque diante da resistência de bactérias. Por isso, o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS): "Sem uma ação urgente, caminhamos para uma era pós-antibióticos, em que infecções comuns e ferimentos leves podem voltar a matar".

Conforme a OMS, infecções como pneumonia, tuberculose e gonorreia, estão se tornando cada vez mais difíceis e, às vezes, impossíveis de tratar. A estimativa é que pelo menos 700 mil pessoas morrem por ano devido a doenças resistentes a medicamentos antimicrobianos e alerta que o número de mortes pode chegar a 10 milhões, a cada ano, até 2050, mantido o cenário atual.

O que nem todos sabem, é que o uso consciente dos medicamentos é uma missão que deve ser compartilhada com a população de um modo geral, profissionais de saúde e indústria farmacêutica.

O médico infectologista de Erechim, Vanderlei Madalozzo, esclarece que os antibióticos devem estar voltados para o tratamento de infecções bacterianas, independentemente da localização, e não aos vírus, como muitas pessoas confundem.

Eles podem atuar em problemas do trato intestinal, urinário, digestivo, respiratório, pele, entre outros. “Há basicamente dois tipos: os bactericidas (eliminam as bactérias) e os bacteriostáticos (por meio deles é possível inibir a replicação das bactérias). No momento em que é identificada uma infecção, por critérios clínicos e laboratoriais, é preciso utilizar o antibiótico”, orienta.

Madalozzo alerta que é fundamental observar e seguir à risca os horários. “O ser humano tem dificuldades de tomar medicamentos. Reforçamos que é imprescindível que cada um faça a ingestão da dosagem correta, no tempo certo e no período indicado pelo médico”.

Conforme o especialista, muitas vezes as pessoas tomam um antibiótico durante três dias e já param. Isso é o chamado subtratamento. “Logo pode ocorrer uma nova infecção ou, até mesmo, aquele problema já enfrentado, pode retornar. Além disso, na medida em que o paciente toma o remédio nas doses erradas, no tempo inadequado e, após uma escolha equivocada, pode surgir uma bactéria denominada multirresistente - desenvolve mecanismos de resistência antimicrobiana. Com isso, ela consegue desenvolver mutações e inibe a ação dos antibióticos”, explica, citando que é fundamental avaliar se há critérios para uso de determinado medicamento, qual deve ser escolhido, os horários e o tempo de uso. “O grande problema é que muitas vezes o antibiótico é utilizado de forma errada. Por exemplo, em determinado momento, uma pessoa não tem um quadro instalado de infecção e o aconselhado é aguardar um pouco e investigar a origem do problema, antes de iniciar a aplicação de antibióticos”, comenta.

Bactérias multirresistentes

Segundo o médico, atualmente já existem bactérias multirresistentes e não há no mercado antibióticos que sejam eficazes no tratamento. “Um exemplo claro é que precisou ser buscado é um medicamento antigo como a polimixina, que possui muitos efeitos colaterais e, por isso, tinha deixado de ser utilizada, porém, se tornou uma opção na ausência de outros antibióticos eficazes para determinados tipos de infecções. Contudo, mesmo a polimixina não oferece sempre a certeza de que resolverá o problema, é uma tentativa”, salienta.

Possíveis reações

Há alguns antibióticos em que os cuidados devem ser redobrados, principalmente se administrados de forma contínua: os chamados nefrotóxicos - que quando são utilizados, pode levar o paciente a uma insuficiência renal; e os ototóxicos, podem provocar alterações na audição. “Isso leva em conta as doses, o tempo de uso e a idade do paciente. Sendo assim, deve ser analisado se o medicamento não terá efeito em outros órgãos, o que pode provocar, com o propósito de evitar, até mesmo, quadros mais graves. As reações são, geralmente, a curto prazo e é preciso suspender o uso”, pontua.

O infectologista cita, ainda, que há reações provocadas por outros remédios como as quinolonas que podem causar problemas futuros, principalmente de origem osteomuscular, como as lesões em tendões. Alguns desses antibióticos foram até contraindicados, sendo oferecidos somente em casos muito extremos.

No caso das crianças, há medicamentos que não são indicados e o grande diferencial é considerar o peso. “Pacientes acima de 33 quilos, usa-se dose normal. Contudo, abaixo desse peso é necessário fazer cálculos para evitar uma subdose ou efeitos colaterais por uso inadequado”, frisa.

Na opinião de Madalozzo, a exigência da receita no momento da compra do antibiótico, foi uma medida que auxiliou no controle, porém, resolve somente uma parte dos problemas, conhecida como ‘infecções comunitárias’. “O principal problema quando se fala em resistência bacteriana, é em nível hospitalar. Atualmente há um uso indiscriminado desses medicamentos. Entre os principais fatores está a falta de conhecimento médico em relação aos antibióticos; o uso equivocado em razão de medo de complicações; a profilaxia cirúrgica – casos de quem faz um procedimento e tem uma dose adequada para utilizar o antibiótico: deve suspender o uso em no máximo 24 horas. Porém, há inúmeros casos em que esse uso é estendido até sete dias, por exemplo, sem necessidade e isso pode auxiliar no processo de criação de resistência por parte da bactéria e do germe multirresistente”, ressalta.  

O uso indiscriminado do medicamento também está na comunidade de forma geral e, conforme o infectologista, isso parte de consultórios, postos de saúde e plantões.

Em paralelo à melhor administração dos antibióticos, está o anseio por avanços no campo da pesquisa e produção de novos medicamentos. “Estimamos que o mercado farmacêutico forneça novas opções, com maior potencial de resolução dos problemas de infecção. Estão sendo feitos estudos mas até o momento não surgiu algo que seja tão eficiente quanto os antibióticos já existentes”, completa.

 

 

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