Do viés religioso ao tom comemorativo, da homenagem até a eternização de determinado acontecimento. Escondidos em meio às praças e canteiros ou simplesmente invisibilizados na correria do dia a dia, eles marcam momentos e simbolizam histórias que vão muito além de suas formas materiais, muitas vezes esculpidas em bronze.
Erechim conta com uma quantidade significativa de monumentos, especialmente nas avenidas centrais. Cada um com um significado específico, eles são, como define Jacques Le Goff, “um legado à memória coletiva”. O historiador francês define ainda, em seu livro História e Memória, que são características do monumento, “o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária”.
Dos monumentos rotaryanos aos bustos da Praça do Imigrante
O Jornal Bom Dia pesquisou no Arquivo Histórico Municipal a origem e datação dos monumentos de Erechim. Além de registros da imprensa, um dos documentos que compila os monumentos erechinenses é o artigo “Subindo a Avenida e lendo a sua história - o que contam os monumentos nas praças e canteiros do centro de Erechim”, escrito por Rodrigo Alves Pereira, pesquisador histórico e atualmente coordenador pedagógico da Prefeitura de Erechim.
Pereira mapeou os monumentos partindo da entrada sul da cidade, começando pelos símbolos dos clubes de serviço - Lions e Rotary Club – que são responsáveis também pelo cuidado e manutenção de alguns dos que estão dispostos pelo município. O pesquisador destaca que estes monumentos, comuns em várias cidades, têm o objetivo ao visitante a presença desras instituições na cidade. “As instituições com maior número de monumentos são os clubes de serviço, sendo do Rotary Club o monumento na entrada sul do município; A Mãe (em conjunto com o Colégio Marista Medianeira) e o busto de Paul Percy Harris, fundador da entidade; e do Lions Clube, além do monumento na entrada da cidade, o avião T-6 1259-NA e o leão em um dos largos da Praça da Bandeira”, afirma em seu artigo, destacando a valorização do uso do símbolo como a perpetuação da presença e ação das entidades.
Bola Canarinho: a maior bola estática do mundo
Um dos monumentos recentes em Erechim e que já figura no Guiness Book, o Livro dos Recordes, está localizado em frente ao Colosso da Lagoa. Feita toda em aço e considerada a maior bola estática do mundo construída em um estádio de futebol, o monumento Bola Canarinho mede 3,5 metros de diâmetro e pesa uma tonelada. Sua construção teve a ajuda de muitas empresas e pessoas no decorrer do processo, com doação de todo o material e mão de obra. O monumento marca ainda os 91 anos do Ypiranga Futebol Clube e é uma das 10 principais atrações turísticas do RS, eleito pela Secretaria de Estado de Turismo.
A Mãe
Iniciativa conjunta do Rotary Club e Colégio Marista Medianeira, o monumento A Mãe traz a figura de uma mãe com seu filho ao colo. Inaugurado em 1976, trata-se de uma homenagem à maternidade. Em seu artigo, Pereira afirma que a figura da mãe ganha expressividade a partir do momento que se associa à Maria, mãe de Jesus e da humanidade, cultuada pelos positivistas, destacando que a formação do município “traz características positivistas que se materializam no traçado urbano, no povoamento e nas relações humanas”. A obra, localizada na Praça Jaime Lago, pesa 800 kg.
Avião T-6 1259-NA
O Avião T-6 1259-NA, instalado na Praça Jaime Lago, é uma homenagem aos aviadores da Força Aérea Brasileira. Ele foi usado pela FAB, entre 1942 e 1946, para o treinamento avançado de pilotos. A aeronave era utilizada para treinamentos de patrulha, tiro e bombardeio. Também foi usado pela Esquadrilha da Fumaça. O monumento foi inaugurado no dia 2 de outubro de 1974, como uma doação ao município pelo Ministério da Aeronáutica. Veio de Lagoa Santa em Minas Gerais, por via rodoviária, sendo uma conquista do presidente do Lions Clube Erechim Centro, Albano Frey.
Monumento ao Escoteiro
Localizado no largo em frente ao Avião, está o Monumento ao Escoteiro Mundial. Instalado em agosto de 2009, é acompanhado por um mastro. É utilizado nas datas cívicas e escoteiras e marca os mais de cem anos da criação do Movimento Escoteiro na Inglaterra por Baden Powell e homenageia jovens que já fizeram e os que fazem parte do movimento em todos os cantos do planeta.
Getúlio Vargas e a Carta Testamento
Inaugurado em julho de 1955, dois anos após a inauguração da Praça da Bandeira, o busto do presidente é uma homenagem à Getúlio Vargas. Junto a ele, está a Carta-Testamento. O monumento foi oferecido pelo então governador Leonel de Moura Brizola, em evento ocorrido no dia 5 de julho 1955.
Deputado Afonso Tacques
Nascido em Palmeira das Missões no dia 6 de Junho de 1912, Affonso Tacques foi professor, comerciante, industrialista, gerente regional da CEEE em Erechim, presidente da Câmara, Patrão e Patrão de Honra do CTG Galpão Campeiro, Sócio Benemérito da Associação de Estudantes de Erechim e atuou ativamente na maioria das entidades do município, tendo sido vereador e deputado estadual. É homenageado com um busto no Largo entre a Prefeitura e a Praça da Bandeira, espaço que também leva seu nome e foi inaugurado durante as comemorações dos 90 anos de Erechim, em 2008.
Monumento ao Chimarrão
Localizado em frente à Câmara de Vereadores, o monumento ao chimarrão foi inaugurado no dia 20 de setembro de 2006. Composto por uma cuia de chimarrão e uma chaleira, trata-se de uma homenagem à cultura e ao hábito de chimarrear, tão comum na cultura gaúcha. Confeccionada em fibra de vidro, a cuia tem 1,97 metros e a chaleira (com o suporte) mede 2,20 metros.
Leão do Lions Clube
Símbolo do Lions, o leão também é um dos monumentos de Erechim. Sentado sobre uma pedra bruta e segurando a placa oficial da entidade com a pata direita, ele está instalado no largo ao lado da Praça da Bandeira.
Monumento ao Colono
“Ao defrontares com este símbolo pensa naqueles que, alheios aos gozos mundanos, só tem com glória o suor de seu esforço”. Victório E. Ricciardi. As inscrições estão na placa do Monumento em Homenagem ao Colono, localizado no canteiro central da Avenida Maurício Cardoso, ao lado da Catedral São José. O monumento, como seu próprio nome já diz, é uma homenagem aos colonos e foi inaugurado no dia 25 de novembro de 1955 em ocasião da 3ª Festa Nacional do Trigo. A escultura em bronze feita por Vasco Prado, foi inaugurada por João Caruso.
Obelisco
Instalado logo adiante do Monumento ao Colono, o Obelisco foi erguido em homenagem ao primeiro centenário da Independência, no ano de 1922. Conforme Pereira, sua posição original era onde hoje se encontra o chafariz, no centro da Praça da Bandeira. Ele conta ainda uma curiosidade: “Originalmente na posição atual do monumento estava localizado o busto de José Bonifácio, que possui curiosa história de ter sido retirado do local por influência do antigo padre da Igreja Matriz, por este não concordar “‘ver um maçon cada vez que abria as portas da igreja’”. Ele explica que isto porque “a antiga Igreja Matriz, destruída em 1969 seguia a tradição dos templos da antiguidade, com sua porta voltada para o leste, o nascente do sol, uma vez que o monumento se localizava de frente para a porta da igreja e a ideias a respeito da Maçonaria envolviam, na época, conceitos fantásticos e supersticiosos”.
Paul Percy Harris
O busto do fundador do Rotary Clube Internacional também está localizado no canteiro central da Avenida Maurício Cardoso e foi inaugurado em 2001. Paul Percy Harris fundou o Rotary no dia 23 de fevereiro de 1905. Ele é homenageado em Erechim pelos cinco clubes existentes.
Vendedor de Jornais
Conforme Rodrigo Alves Pereira, em seu artigo, o monumento ao vendedor de jornais é um dos que mais habita o imaginário, principalmente das crianças erechinenses. Ofertado por Gelsomina Carraro no aniversário de 34 anos de Erechim, no dia 30 de abril de 1952, ele mostra um menino dormindo. Também conhecida como Pequeno Jornaleiro, a obra foi esculpida pelo artista plástico italiano Mateo Tonietti e restaurada diversas vezes em razão de vandalismos. Na escultura original, o menino possuía um cigarro em uma das mãos, que chegou a ser retirado em uma das restaurações. “O que nos faz imaginar que o hábito de fumar era comum em crianças da década de 50”, observa o pesquisador. Na última restauração, realizada em 2014, o cigarro foi novamente colocado.
Tiradentes
Localizado na quadra anterior ao Viaduto Rubem Berta está o busto em homenagem à Tiradentes. O monumento “segue o formato clássico do ‘Cristo Republicano’ um exemplo do simbolismo adotado pelo Estado Republicano Brasileiro de um herói que morreu por seus ideais, ou sejam valores antangônicos ao Império”, afirma Pereira, destacando ainda que “O Tiradentes histórico se difere do Tiradentes mito em vários aspectos”. Quanto a isto, ele cita questões como o rosto que “seguindo o modelo de ‘Cristo Renascentista’ contradiz sua origem portuguesa com descendências indígenas”. Datado de 1950, conforme o Arquivo Histórico de Erechim, o busto foi ofertado por 22 dentistas de Erechim.
Carro de combate X-1
O Carro de combate X-1, conhecido também como Tanque de Guerra ou “perereca”, está localizado na Praça Boleslau Skorupski, também na quadra anterior ao Viaduto Rubem Berta. Conforme Pereira, ele “remete à participação erechinense na Segunda Guerra Mundial”. Ele foi recebido do Comando do Exército - Comando Militar do Sul/3ª Região Militar, através da 10ª Circunscrição de Serviço Militar/Santo Ângelo e 17ª Delegacia do Serviço Militar Erechim em homenagem aos 25 anos da Associação dos Reservistas de Erechim, no dia 24 de abril de 2005.
Com guarnição de 4 homens, blindagem de 50mm, o carro de combate mede 6,5 metros, pesa 16 toneladas e atinge 55 km/h. Está equipado com um canhão 90 milímetros, uma metralhadora ponto 30 e uma metralhadora ponto 50.
Praça do Imigrante
Inaugurada em 1975, nela estão presentes monumentos e bustos de pioneiros de Erechim. Com predominância de homenagens à etnia italiana, a Praça do Imigrante, segundo Pereira, é “onde o positivismo tardio se expressa de forma clara. Com um busto e um monumento da etnina polonesa ao lado dos quatro monumentos imigrantes de origem italiana, nos remete aos extremos da Hierarquia das Nações, de Auguste Comte. Além dos bustos, fazem parte da praça monumento do Biênio da Colonização e Imigração Polonesa
Adam Chicocki – Nascido em Cracóvia, na Polônia, em 1888, chegou em Erechim no ano de 1910, onde faleceu no ano de 1931, aos 43 anos. Esteve presente em importantes iniciativas, como a Igreja Matriz São José. Tinha uma casa de comércio, a Casa Polonesa, que era referência aos erechinenses.
Atílio Assoni – Italiano nascido em Cremona, no ano de 1866, chegou no Brasil em 1873, então com seis anos. Faleceu no ano 1943, cidade onde veio morar aos 17 anos, em 1903. Conhecido por seu empreendedorismo, era proprietário de uma casa comercial e uma serraria.
Bortolo Balvedi – Também italiano, nascido em Beluno no ano de 1872, veio para o Brasil em 1879, com sete anos e chegou em Erechim no ano de 1911, falecendo em 1936. É o fundador da empresa que depois ficou conhecida como uma das primeiras da região, a Indústria de Bebidas Balvedi. Criada em 1913, era referência na economia regional
João Carlon – Gaúcho de Santa Tereza, nasceu em 1890 e veio para Erechim no ano de 1924. Iniciou com uma discreta fábrica de facas e canivetes, que depois se tornou fábrica de peças para veículos de tração animal e, em 1936, com sua ampliação, abriu uma fábrica de molas – Molas Carlon Ltda. Faleceu em 1951.
João Massignan – Nascido na Itália, em Montecchio Maggiori no ano de 1871, mudou-se para o Brasil em 1880 e se instalou em Erechim no ano de 1916, onde iniciou seus negócios com uma casa de comércio. Deu impulso à economia local quando, dez anos depois, iniciou uma agência de automóveis (Ford Motor Company Exports Inc). Faleceu no ano de 1955
Biênio da Colonização e Imigração Polonesa: Réplica reduzida do monumento existente em Varsóvia construído em 1976.
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