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Estação Férrea: O marco zero de Erechim

A existência da ferrovia facilitou e incentivou a imigração especialmente a partir de 1910, ano em que a estação foi concluída

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Estação Férrea
Por Najaska Martins najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Najaska Martins

A existência da ferrovia facilitou e incentivou a imigração especialmente a partir de 1910, ano em que a estação foi concluída

As paredes pichadas, o lixo sobre os trilhos e o vazio que toma conta da Estação Férrea de Erechim nada se parece com o espaço antes marcado por intensa movimentação e barulho do trem. A única semelhança àquela época está, talvez, nas várias vozes misturadas que compõem as conversas que acontecem logo ali, ao lado. Diálogos paralelos a tal espaço e que vêm de pessoas que aguardam os ônibus que as levarão para os vários pontos da cidade que se formou a sua volta.

Considerada marco zero de Erechim, ela foi inaugurada em agosto de 1910 permitindo que em seu entorno, pequenas comunidades fossem se instalando, transformando-se em vilarejos que foram colaborando para a ocupação regional. As primeiras famílias foram chegando ao então povoado por volta do mesmo ano. Contam os documentos consultados no Arquivo Histórico do município, que se tratavam de italianos que por aqui chegaram exatamente pelo caminho aberto pela ferrovia e, com o passar do tempo, foram colocando em prática neste espaço seus valores culturais e materiais. Eles, assim como as demais levas de imigrantes - de origem polonesa, alemã e israelita - vieram chegando em seguida por estas terras vislumbrando uma vida melhor. Foram se estabelecendo, colocando nos espaços da cidade características perceptíveis até hoje, especialmente na arquitetura e nos costumes erechinenses.

Da construção da estrada de ferro até a Estação Férrea de Erechim

O documento referente à lei municipal nº 3.311, de 19 de setembro de 2000, que considera patrimônio histórico e cultural do município a mancha ferroviária de Erechim e autoriza o Executivo Municipal a determinar a abertura de processo de tombamento traz aspectos históricos acerca da construção da estrada de ferro.

Conforme o material, disponível no Arquivo Histórico municipal e feito com base em artigos dos pesquisadores Enori Chiaparini e Altair Menegatti, foi através de um decreto de novembro de 1889 que o Governo Imperial concedeu ao engenheiro João Teixeira Soares o privilégio para construção, uso e gozo de uma estrada de ferro que ligasse o Rio Grande do Sul a São Paulo, sendo que esta partiria das margens do Rio Itararé, na divisa entre Paraná e São Paulo, chegando até Santa Maria.

“Teixeira Soares renegociou seus direitos com a Compagnie des Chemins de Fer Sud-Ouest Brésilien, empresa belga organizada para este fim. Esta transferiu parte de seus direitos para a Cia. Industrial das Estradas do Brasil, da qual Teixeira Soares era um dos diretores. Os direitos da Sud-Ouest ficaram, então, restritos ao trecho entre Santa Maria e Cruz Alta. Novamente, em 1893, houve uma renegociação em que a Cia. Industrial transferiu seus direitos para a Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande”.

Em 1894, a Cia. Industrial repassou para a Sud-Ouest o trecho entre Cruz Alta e o Rio Uruguai (Marcelino Ramos), além dos ramais. Conforme a pesquisa, a empresa belga acabou ficando com a concessão de toda linha em território gaúcho, sendo que em 1894 inaugurava-se o primeiro trecho até Cruz Alta; em 1898 até Passo Fundo. “Em 1907, pelo Decreto Federal nº 6673, as linhas férreas a construir e explorar entre Passo Fundo e o Rio Uruguai foram incorporadas à Cia Auxiliare, em virtude do contrato de arrendamento com ela firmado em 1905. Em 1909, o Decreto 7643 aprova os estudos definitivos e o orçamento do trecho final, no qual situa-se a Estação Erechim, inaugurada em 1910”, informa o documento.

De Paiol Grande a Erechim

A colônia de Erechim foi criada pelo governo estadual em 1908. Sua sede era no atual município de Getúlio Vargas, sendo que a localidade do atual município de Erechim chamava-se Paiol Grande, caracterizando-se como um pequeno povoado que foi crescendo com a chegada dos trilhos e a inauguração da estação ferroviária em 1910.

De acordo com o material do Arquivo Histórico, nessa mesma fase, a região estava incluída em projetos do governo estadual de imigração e colonização, recebendo imigrantes de várias etnias, principalmente alemã, italiana, polonesa e judia.

“A existência da ferrovia facilitou e incentivou a imigração que foi bem considerável a partir de 1910. Em 1916, o Escritório da Comissão de Terras foi transferido de Erechim (atual Getúlio Vargas) para Paiol Grande (atual Erechim). Este fator somou-se ao da ferrovia para dinamizar o crescimento local. Em 1918 a colônia de Erechim emancipou-se de Passo Fundo, com o nome de Boa Vista. A estação ferroviária foi a primeira construção de Paiol Grande. Ao seu lado logo foi construída também a primeira moradia, de propriedade de um funcionário da ferrovia, Antenor Pedrollo”, relata o documento.

No material consta ainda que o traçado primitivo da ferrovia não passava por este local, mas por imposição do engenheiro Carlos Torres Gonçalves, sofreu um desvio para Paiol Grande, que o referido engenheiro julgava que devesse ser a sede da colônia por ser um ponto mais fácil para o acesso dos imigrantes, além de ter grande potencial madeireiro.

Quanto aos benefícios da ferrovia para o crescimento local, os pesquisadores afirmam que a ferrovia barateou os fretes da produção local; a região teve então um desenvolvimento acentuado, sendo que Paiol Grande foi consolidando-se como importante centro regional. Surgiram indústrias ligadas à extração de erva-mate e madeiras, com várias serrarias e depósitos de madeira ao longo da ferrovia. Mais tarde desenvolveu-se a indústria da banha e outros produtos suínos. Na década de 1950 desenvolveu-se muito a produção do trigo, e Erechim tornou-se o grande centro produtor do país.

Toda produção de trigo e farinha era escoada pelos vagões da Viação Férrea. Erechim foi servida pelo trem misto Marcelino Ramos - Passo Fundo; o Noturno Paulista (SP - POA) e o luxuoso internacional que ligava o Rio de Janeiro a Buenos Aires.

Os últimos trens

Foi no ano de 1997 uma das últimas vezes em que o trem passou por Erechim. A linha Marcelino Ramos/Passo Fundo está desativada desde 1997, quando foram suspensas todas as atividades de transporte de cargas ferroviárias com a concessão da Rede Ferroviária Federal à América Latina Logística (ALL).

Depois disso, em março de 2013, a chegada de outro trem chamou a atenção de moradores, que ficaram surpresos após tanto tempo sem ver um deles. A passagem fez parte de uma operação de capina química ao longo da linha Passo Fundo/Erechim, realizada pela ALL.

Antes disto, em 2010, este mesmo trem havia passado pelo município, ocasião marcada por um incidente já que, quando a composição ao passar pelo bairro Frinape acabou destruindo um tanque de concreto de lavar roupas de uma moradora local. O tanque foi instalado junto aos trilhos e a empresa na época teve que indenizá-la, após protestos de moradores que chegaram a fazer uma fogueira junto à linha férrea, não permitindo que o trem retornasse a Passo Fundo.

Na passagem, ocorrida em 2013, a operação de capina não pode passar de Erechim, devido a situação em que se encontram os trilhos a partir da estação ferroviária local. Em várias passagens, eles foram recobertos com asfalto, além das invasões habitacionais de alguns pontos que impediram a passagem da locomotiva.

Confira a reportagem completa em nossa edição impressa...

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