De arquitetura peculiar, a casa de madeira onde morou o fundador da primeira escola de Erechim se mantem intacta, em meio à “selva de pedras” que se construiu em sua volta
No centro de Erechim, mais especificamente próximo ao centro simbólico da cidade, onde estão ícones políticos como a prefeitura e a Câmara de Vereadores e também religioso – a Catedral São José – ela se mantém intacta. De madeira, a casa de arquitetura peculiar permanece tal qual quando foi construída, no ano de 1927. Não fosse pelas flores e frutas que apontam nas árvores plantadas em seu pátio, talvez sequer aparecesse em meio a “selva de pedras” que ao longo dos anos vem se construindo a sua volta. Mais que um símbolo de resistência, ela é, nas palavras de Amauri Rigoni, o proprietário, “um recanto de memória e saudade”.
Para entender a história da casa, é preciso, antes, remontar uma década anterior a sua construção. O ano era 1917 e o mês era junho. Carlos Mantovani chegava por estas terras junto com sua esposa, Natalita, e seu filho adotivo, Modesto Rigoni, então com 10 anos. Professor do Estado, Mantovani logo se movimentou para a construção da primeira escola de Boa Vista, nome do local que hoje conhecemos por Erechim. O local escolhido foi seu terreno, adquirido junto à Comissão de Terras durante uma de suas viagens, antes mesmo de sua mudança.
Concluída a escola onde lecionou por quatro anos (de 1921 a 1924), Mantovani deu início à construção de sua casa, em um espaço muito próximo ao local onde havia instalado a instituição de ensino. Tanto uma quanto a outra permanecem até hoje no terreno que abrange as ruas Presidente Vargas e Uruguai, no centro de Erechim.
O filho de Modesto, Amauri Rigoni, explica que seu pai perdera a mãe ainda bebê, sendo adotado então pelos seus tios, Carlos e Natalita. Na vinda para Erechim, Mantovani construiu a casa que viria a ser lar de Modesto durante toda a sua vida. Mantovani e sua esposa permaneceram no local até o ano de 1945, quando se aposentou. “Depois de aposentado, tio Mantovani se mudou para uma chácara, no Bairro Três Vendas, onde se dedicou ao cultivo de frutas. Seu quarto no entanto sempre permaneceu, sendo que ele só retornou a sua casa quando estava mais idoso”, relata Amauri.
Ele, assim como seus quatro irmãos nasceram na casa, sendo que todos os outros, na vida adulta, acabaram se mudando para outras cidades. Apenas Amauri permaneceu em Erechim com a finalidade de auxiliar nos cuidados com os pais. Quanto ao lar, ele destaca que permanece praticamente inalterado. “A casa permanece exatamente igual a quando foi construída. A única modificação foi nos anos 60, quando o porão foi reconstruído em alvenaria”, pontua.
Passado ainda presente
Ao lembrar dos anos em que viveu na casa junto aos seus pais, Amauri destaca o que considera uma de suas melhores recordações. O pátio atrás da residência é permeado pelo verde das diversas árvores frutíferas. “Minha mãe fazia geleias e diversos doces com as frutas que tínhamos no quintal. Tudo era utilizado, lembro dela com seus panelões fazendo os doces. Há relatos que antes ainda de eu nascer, criavam até vacas leiteiras no pátio. Era uma maneira de se manter, tendo em vista que não havia mercado próximo e se produzia o máximo de coisas que se podia em casa”, diz.
Quando se casou, Amauri passou a morar em uma casa ao lado da residência dos pais para que pudesse ajudá-los a manter o que foi construído. Mantovani faleceu nos anos 60. Seu pai em 1989 e sua mãe em 2005. Assim como a casa e os pertences familiares, ainda hoje, as árvores permanecem no quintal, oferecendo frutas e servindo de lar para diversas espécies de pássaros. Este é um dos fortes motivos da resistência de Amauri em manter o local como está. “Penso diferente no mundo atual. Valorizo muito as plantas do imóvel, tanto quanto a área construída. Sufocaram a cidade com o excesso de construções e estamos perdendo qualidade de vida. Não faltaram interessados em comprar essa área, mas nunca colocamos ela a venda. Quero muito manter este verde em meio a selva de pedras. Não estamos valorizando devidamente o que temos, mas o retorno virá um dia. O meio ambiente que hoje desmatamos fará falta depois”, pondera.
No desejo de manter a privacidade da família, Amauri não permitiu que a reportagem do Jornal Bom Dia fizesse imagens dentro da residência. No entanto, mostrou e detalhou à repórter que escreve este texto cada ponto do lar onde seus pais, irmãos e tios viveram. Com o carinho de quem revive memórias, mostrou móveis, paredes, fotografias e decorações que remontam histórias.
Embora, como ele mesmo afirma, não tenham faltado interessados em comprar o local, Amauri destaca que enquanto for possível, se manterá resistente para deixá-lo como está. “Chegar aqui, olhar tudo é como voltar ao passado. Mantenho tudo isto assim porque tanto meus pais quanto meus tios sempre mantiveram a opção de não se desfazer da propriedade. E também porque aqui é um recanto de memória e saudade. No mundo atual há a premissa de que tudo tem que dar lucro, mas penso diferente. Para mim, esta não é uma opção de felicidade”.
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