A região Alto Uruguai precisa dar mais atenção a um assunto que mexe diretamente com a saúde da população: a qualidade da água. Um dos motivos se deve ao aumento da presença de agrotóxicos nas águas superficiais, os rios que abastecem os reservatórios para consumo humano da região, é o que afirma a coordenadora do programa Vigiagua na região, a bióloga, Cláudia Santin Zanchett.
O Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiagua), estruturado a partir dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), desempenha um papel importante para garantir a qualidade e segurança da água para consumo humano no Brasil.
Agrotóxicos
“É preciso alertar toda a região para a urgência de ações de proteção ambiental nas bacias, mananciais que contribuem com o abastecimento humano de água”, afirma.
Ela observa que 60% da população da região dependem das águas superficiais para consumo humano, o que representa em torno de 140 mil pessoas. Apesar dessa problemática, Cláudia ressalta que toda água ofertada para a população na região atende a legislação em relação aos parâmetros dos agrotóxicos.
Segundo Cláudia, o alerta vai no sentido de que em todos “os nossos rios para captação de água hoje são detectados agrotóxicos. E a cada ano aparecem outros tipos”. Aí, a bióloga pergunta, “o que a região está fazendo para proteger os rios que abastecem a população”. E, acrescenta, “se não olharmos com cuidado e precaução a nossa água até quando vamos conseguir atender a legislação”, questiona.
A coordenadora do Vigiagua cita o exemplo da substância atrazina, um agrotóxico extremamente persistente no ambiente, no solo e na água, com uma grande lixiviação, que chega na água com muita facilidade. “A legislação prevê um valor máximo de atrazina de 2 ppm, se tiver na água 1,5 ppm estou atendendo a legislação, mas qual a consequência para a saúde estar consumindo água todo dia com um nível de 1,5 ppm”, pergunta. Além dos agrotóxicos, Cláudia comenta que há também uma série de substâncias químicas que podem estar presentes na água e afetando a saúde das pessoas.
A essa situação também se soma a falta de saneamento básico nos municípios da região. “Não temos nos nossos municípios tratamento de esgoto, de uma forma ou outra, e esses resíduos vão chegar ao manancial, nos rios, e trazem com eles substâncias químicas, antibióticos, hormônios, uma série de outras questões que envolvem a saúde”, destaca.
Tratamento
Conforme Cláudia, o tratamento disponibilizado para utilização em grande escala não retira da água resíduos de agrotóxicos. “Os efeitos podem ser minimizados através da filtração e todos os processos que a água passa numa estação de tratamento. Mas não há hoje disponível, viável, tecnologicamente e economicamente, uma forma de retirar resíduos de agrotóxicos da água”, diz.
Mata ciliar
Uma das medidas para minimizar essa situação, explica Cláudia, seria a preservação da mata ciliar nas margens dos rios, de acordo com o que prevê a legislação, isso já ajudaria a diminuir o impacto dos agrotóxicos nas águas superficiais. “São diversas técnicas juntas como respeitar a distância da lavoura e do rio, trabalhar com plantio direto, conservação de solo”, diz.
Políticas públicas
A coordenadora do Vigiagua destaca que há necessidade de implantação de ações que protejam as bacias que abastecem as cidades. “É preciso um planejamento, cuidado estratégico municipal, e no futuro um plano estratégico regional de proteção da água que tenha um caráter interinstitucional nas intervenções de proteção. Como por exemplo o manejo do esgoto urbano, a questão agrícola, proteção da mata ciliar, ações que envolvam várias instituições, que são imprescindíveis para prevenção da saúde humana”, afirma. Cláudia enfatiza que não é um plano de um setor, mas vários, olhando a água como um bem comum e de responsabilidade regional.
Ela cita alguns exemplos pontuais de preservação e projetos que já foram desenvolvidos na região. “No entanto, o que eu vejo hoje, enquanto Secretaria Estadual de Saúde, é que a qualidade da água dos rios que abastecem a população não está melhorando, e isso me leva a inferir que projetos de impacto regional e de proteção dos mananciais não estão ocorrendo de forma efetiva”, observa.
Semana da Água
Entre os dias 4 e 11 de outubro ocorrerá a Semana Estadual da Água no Estado, nestes dias diversas ações serão realizadas na região.