O Grupo Jupem, de Erechim, representou o Brasil e a Polônia no IV Encontro Internacional de Folclore, realizado entre os dias 3 e 6 de setembro na cidade de Teodoro Schmidt, sul do Chile. O evento, que integrou as comemorações pelas festas pátrias chilenas, buscou popularizar e valorizar as manifestações culturais folclóricas latino americanas proporcionando à comunidade encontros de rara beleza e diversidade, com financiamento total do governo local.
A participação no festival, contudo, não foi especial apenas para as famílias chilenas; os 20 membros da delegação erechinense (16 dançarinos e quatro pessoas da equipe de apoio) viveram momentos inesquecíveis antes, durante e após sua passagem pelo Encontro. É sob esta perspectiva, que trata de sensações, curiosidades e sentimentos, que falaremos a seguir, com a colaboração da presidente do Jupem, Monica Luisa Kieling, e de um dos dançarinos do Grupo, Fernando Martini.
Boa viagem e uma ótima leitura.
Brasil, Polônia e patriotismo chileno
O caráter itinerante do festival possibilitou apresentações em quatro localidades diferentes, todas com casa cheia e a presença das principais autoridades municipais: dia 3 de setembro, Puerto Saavedra; dia 4, Barros Arana; dia 5, Hualpín; e dia 6, Teodoro Schmidt. Em cada noite, o Grupo trouxe um bloco de danças brasileiras e outro de danças polonesas.
Em âmbito tupiniquim, rolou forró, representando os nordestinos, o samba de gafieira, simbolizando a malandragem carioca, além das danças tradicionais gaúchas, com direito a trecho de ‘Erechim História e Canto’ acompanhada da bandeira do município. Na esfera polonesa estiveram presentes a tradicional Krakowiak e as danças dos montanheses de Huculy, que entraram no repertório do Grupo bota-amarela há cerca de um ano.
Segundo Fernando Martini, por mais que em sua origem o Jupem retrate o folclore polonês, sempre que deixa os limites do estado carrega algo da cultura gaúcha; levando consigo, de igual modo, outras danças brasileiras, quando sai do país. Desta vez, diz Martini, não foi diferente, até porque o evento exigia números de danças brasileiras (coreografadas por Leonardo Pavan). A preparação durou cerca de cinco meses, com ensaios nos fins de semana e algumas madrugadas em dias da semana, coordenados por Jeison Lipnharski, instrutor do Jupem.
Curiosidade: Por se tratar de um Encontro alusivo à comemoração da independência do Chile (18 de setembro), os integrantes do Grupo erechinense também foram tocados pelo senso de patriotismo do povo local – representado, entre outros, pela bandeira do país hasteada desde a mais simples moradia ao principal prédio comercial daquela região. Há, inclusive, uma lei que regulamenta tal uso.
Araucaína e Mapuches
A região de Teodoro Schmidt é conhecida como Araucanía - território sagrado dos Mapuches-Araucanos e leva esse nome justamente por ser uma região com bosques milenares de araucárias, lembrando a realidade local.
Cultura viva
E por falar em Mapuches, o ponto alto da viagem, conforme Fernando Martini, foi cruzar o continente e chegar ao extremo oeste, na localidade de Playa Porma, no Oceano Pacífico.
Lá, os representantes do Jupem, em visita a uma escola rural, tiveram a oportunidade de interagir com a comunidade de índios Mapuches - numa troca única de informações e experiências. Ao final do encontro, aliás, foram surpreendidos por apresentações das crianças, que emocionaram a todos, antes de se deliciarem com um banquete de iguarias Mapuches, preparado pelas mães dos alunos.
Curiosidade: Os Mapuches foram o único povo nativo da América a vencer militarmente os conquistadores espanhóis no século 16, conseguindo manter sua resistência por 300 anos. Hoje, a relação entre o povo Mapuche e o estado Chileno ainda é bastante delicada e repleta de enfrentamentos.
As equipes do bus
Esta foi a quarta vez que o Jupem foi ao Chile (sendo a primeira ao Encontro Internacional de Folclore).
O trajeto já é bastante conhecido pelo grupo, que não abre mão de viajar de ônibus e apreciar as surpresas que o caminho reserva. Para isso, usam os ensinamentos dos seus fundadores, o Padre Walenty Nowacki e a Irmã Wanda Szymla, poloneses que acreditavam que o escotismo era a maneira de manter a disciplina e a organização.
Em uma viagem assim, conta Martini, todos os integrantes são distribuídos em equipes, com diferentes responsabilidades: equipe da limpeza, que deve instruir os integrantes e auxiliar na limpeza do ônibus, camarins e locais de hospedagem; equipe da alimentação, que cuida das refeições no trajeto; equipe da indumentária, responsável pela checagem dos itens de vestimenta e organiza a logística do transporte; equipe artística, atenta às apresentações e passagens de palco; equipe cultural, que faz um apanhado geral de todo o caminho e traz elementos sobre os pontos onde o grupo passa, apresentando curiosidades e questões históricas; e equipe espiritual e social, responsável por realizar reflexões acerca das vivências, promovendo a integração com outros grupos, além de preparar atividades para passar o tempo durante os longos trajetos.
Fascínio e nevasca nas Cordilheiras
Outro ponto alto da viagem, literalmente, foi cruzar a Cordilheira dos Andes. O Grupo diz ter se sentido ‘pequeno e sem palavras’. Cada curva e cada detalhe faziam os jupenianos suspirarem por descobrirem, ou em alguns casos redescobrirem, aquele caminho. Na volta, a surpresa foi ainda maior e mais especial: uma nevasca surpreendeu a todos na localidade de Los Caracoles, um conjunto de 32 curvas bastante fechadas. Muitos dos que integravam a comitiva nunca haviam saído do país e sequer haviam visto neve na sua vida, o que tornou o momento ainda mais especial.
Simplicidade é luxo
Se é verdade que cada viagem traz suas particularidades, a imersão ao sul do Chile trouxe ao Jupem um olhar que cativou pela singeleza do momento. Em Teodoro Schmidt, o Grupo foi surpreendido pela simplicidade - que se transformou em luxo, representado pelo esplendor e a grandeza do cuidado.
Fernando Martini conta, emocionado, que os locais faziam questão de transformar cada detalhe em algo único. Uma das oportunidades foi a feira da sexta-feira (6 de setembro), que festejava o dia da mulher indígena, quando uma rua foi fechada e coberta por barracas, vendendo desde legumes até comidas típicas e artesanato local. Ali, Fernando relata ter passado por uma experiência fantástica junto com outros integrantes do grupo. ‘Fomos convidados para provar comidas típicas locais em uma das barracas. Provamos as famosas sopaipillas com diferentes molhos, empanadas, sucos, o mate chileno e uma torta de frutas típicas. Tudo com muito carinho e uma simplicidade que nos conquistaram e fizeram querer retornar ao local’, suspira trazendo de volta a lembrança recente - e já se preparando para a próxima viagem, ainda sem destino certo. ‘Estamos analisando qual será nossa próxima participação internacional, mas tenho certeza que iremos vivê-la de forma tão intensa como esta’, completa.
O que diz a presidente do Jupem
Segundo Monica Luisa Kieling, a interação cultural propiciada pela participação em encontros como o de Teodoro Schmidt é fundamental para ampliar os horizontes do Grupo, permitindo a troca de experiências e aprendizados diversos – que vão do campo cultural à esfera artística. ‘Sempre deixamos um pouco da nossa cultura com eles e trazemos um pouco da cultura deles conosco’, observa Monica. Ela destaca, ainda, a visita aos índios Mapuches, grupo que, segundo ela, guarda similaridades com comunidades indígenas do Brasil, além do acolhimento do povo chileno, em geral.
Em relação aos espetáculos, a presidente também lembra que ao apresentar o samba de gafieira no palco (de forma inédita para o Jupem), foi possível mostrar que o Brasil vai além do samba ‘de carnaval’, internacionalmente lembrado pelo requebrar das mulheres, e suas poucas roupas. ‘Sentimos que eles foram surpreendidos por descobrirem que há outros tipos de samba’, resume.
51 anos de história
O Jupem foi fundado há 51 anos por dois religiosos poloneses e leva ao mundo as palavras de seu idealizador, Padre Walenty Nowacki: “Cultura não tem fronteiras”. O mote mantém vivo em cada um dos integrantes, de ontem e de hoje, o espírito desbravador e a vontade de superar limites a fim de promover a cultura e a diversidade dos povos, através da linguagem universal do folclore, da dança e da música – tendo se apresentado na Polônia, Itália, Espanha, Peru, Argentina, Paraguai, Chile e na maioria dos estados brasileiros - arrebatando premiações de todos os tipos.
Saiba mais
# Além do Jupem, participaram do Encontro o Ballet Folklorico de Teodoro Schmidt, representando o Chile e o grupo Shuk Llactapac Shunku – Espiritu de um Pueblo, de Cuenca, representando o Equador.
# Indicação: O convite para participação do Jupem no evento surgiu do organizador do festival, graças a recomendações de outros grupos.
# Os Mapuches são um povo indígena da região centro-sul do Chile e do sudoeste da Argentina, chamados também de araucanos. Os grupos localizados entre os rios Biobío e o Toltén (atual Chile) conseguiram resistir com êxito aos conquistadores espanhóis na chamada Guerra de Arauco, uma série de batalhas que durou 300 anos, com longos períodos de trégua. A coroa de Espanha reconheceu a autonomia destes territórios em 1641, por meio do Tratado de Quilín. Após a independência de Chile e Argentina, foram invadidos por destacamentos militares republicanos, sendo a população Mapuche confinada em "reduções" Chile e reservas Argentina indígenas.
# Por conta deste processo de despojo, mais que a metade da população indígena Mapuche vive hoje em dia em zonas urbanas, muitas mantendo, entretanto, vínculos com suas comunidades de origem. De maneira geral o movimento Mapuche, que defende o separatismo, luta pela recuperação do território ancestral e cobra mudanças constitucionais em prol dos direitos indígenas e reconhecimento por parte dos Estados de suas especificidades culturais.