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Cultura

Restauração: A arte não abandona o artista

A arte se expressa de muitas maneiras e uma de suas manifestações é a restauração. Isto é, a capacidade de dar novamente vida a um símbolo, que emana valores, histórias e sentido de vida as pessoas. Refazer uma estátua, um objeto, seja qual ele for, não é uma tarefa fácil, requer talento, habilidade, disciplina, conhecimento, técnica, e, principalmente: dom

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Estátua restaurada
“Essa peça demorou um bom tempo para ser refeita
Para o restaurador, o rosto é uma das partes mais difíceis de se fazer porque tem muitos detalhes
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ìgor Dalla Rosa Müller

A arte se expressa de muitas maneiras e uma de suas manifestações é a restauração. Isto é, a capacidade de dar novamente vida a um símbolo, que emana valores, histórias e sentido de vida as pessoas. Refazer uma estátua, um objeto, seja qual ele for, não é uma tarefa fácil, requer talento, habilidade, disciplina, conhecimento, técnica, e, principalmente: dom.  

O restaurador Fabian Delfin Dias, de 38 anos, desde os oito anos de idade começou a manifestar o interesse por arte, desenhando diferentes tipos de animais, carros de polícia. “Estudava no JB (José Bonifácio) e fui evoluindo nessa parte de desenho, copiava personagens de revistas e os colegas me pediam desenhos. Na sétima série fui convidado a dar aula de Educação Artística junto com a professora”, afirma. Ele lembra que quando tinha eventos no JB ajudava a fazer painel e cartazes. “A professora me chamava e, às vezes, era dispensado da aula para ajudar”, diz.

Mas foi com 13 para 14 anos que Fabian entrou em contato com o que, hoje, gosta mais de fazer. Foi trabalhar numa loja de estátuas e artigos religiosos, estudava de manhã e trabalhava de tarde. “Tinha estátuas quebradas, um dia peguei um tubo de cola e consertei uma delas. Assim, comecei a restaurar”, afirma. Ele acrescenta que foi aprendendo a fazer sozinho, como não tinha acesso à internet, na época, às vezes, fazia pesquisa em livros na biblioteca pública de Erechim. A partir daí, houve um intervalo em que deixou de lado a restauração.

Por volta de 1994, Fabian começou a frequentar um centro de Umbanda, o local tinha muitas estátuas, nesse momento, a sua arte emerge novamente do esquecimento. “Vi que tinha uma estátua meio descascada, levei para casa e consertei. O pessoal que frequentava o centro viu que eu arrumava e pintava as estátuas e começaram a me trazer suas peças para consertar, e eu arrumava só pelo prazer de fazer. A partir daí, passei a me dedicar mais a essa questão”, afirma.  

Fabian explica que a Umbanda é uma religião brasileira que tem muitas imagens como de Jesus Cristo, Santo Antônio, Santa Bárbara, pretos velhos, caboclos e São Jorge.

A maioria das estátuas são de gesso, faz uns três anos que está restaurando, também, estátua de resina, um material mais firme que o gesso em que os detalhes da imagem ficam muito melhor. As estátuas são principalmente de temáticas religiosas.

Além de arrumar e restaurar, Fabian acrescenta detalhes, aperfeiçoa a peça, conforme a solicitação do dono. “Por exemplo, restaurei uma estátua de gesso de São Jorge e fiz uma capa de pano e renda para ele que não tinha”, diz.

Fabian comenta que, nesses anos todos, já restaurou centenas de imagens. O tempo para fazer os reparos varia de acordo com cada trabalho, já que se faltar alguma parte da peça ele tem que produzir. Outro detalhe, o gesso não é fácil de trabalhar porque seca rápido, no entanto, hoje tem mais recursos e tintas adequadas para se pintar, para fazer a restauração. Ele trabalha em casa e, às vezes, é necessário criar algumas ferramentas para aperfeiçoar ainda mais os detalhes.

Segundo ele, uma das restaurações mais difíceis foi uma águia de resina que estava bem danificada. “Essa peça demorou um bom tempo para ser refeita. No momento, estou fazendo uma deusa Hindu que está me dando muito trabalho, tem 50 centímetros de altura, feita de um gesso bem fino, bem delicada, as peças estavam tão quebradas que tive que colar usando uma pinça”, comenta.

Outra restauração bem trabalhosa foi de uma estátua de São Francisco de Assis, que levou três semanas para terminar. “Eu mesmo tinha recomendado comprar outra ao invés de restaurar, mas a peça fazia parte da história da comunidade, queriam arrumar ela. Aí restaurei”, conta.

Para o restaurador, o rosto é uma das partes mais difíceis de se fazer porque tem muitos detalhes. “As pessoas querem um rosto com uma boa expressão, com ‘olhos vivos’”, diz. Ele também refaz estátuas novas que estão mal-acabadas. “Por exemplo, a Nossa Senhora de Aparecida normalmente está de azul, aí a pessoa quer substituir por um manto branco com detalhes dourados”, observa.

Fabian também constrói estátuas, recentemente, fez um Pazuzu para ele, figura que faz parte da mitologia suméria e aparece no filme Exorcista. “Eu vejo esse trabalho com um dom, porque nunca tive aula de restauração ou fiz curso, nem tive um professor para ensinar a fazer, isso foi se desenvolvendo e aflorando”, observa.  

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