A arte é enigmática por muitas razões, se olhar só para o processo criativo já se tem muito o que falar, se considerar o que cada artista produz o tema é inesgotável e, ainda mais, se pensar como a arte surge e se manifesta nas ações do artista, o assunto não tem fim. Certo é que a arte comove, encanta, embeleza e dá sentido à vida. Arte é uma maneira de transformar e ressignificar a existência. O cabeleireiro, Lennon Pinheiro, de 50 anos, é um exemplo disso, há 32 anos exerce todo dia a sua profissão, mas nas horas vagas tem um hobby: é escultor, marceneiro, artesão.
A vocação artística, o gosto pela arte, principalmente, o entalhe em madeira iniciou quando ainda era jovem e de lá para cá nunca mais parou, já são 35 anos esculpindo, criando enfeites, móveis, quadros, mesas, bancos, cadeiras, balcões, aproveitando todo tipo de material, transformando matéria-prima em arte e utensílios domésticos. Hoje, também faz alguns trabalhos no metal.
“Trago isso desde guri, quando era menino, comecei a fazer entalhe com 14 anos usando o que tinha em casa, uma ponta de formão, facão, martelo e de lá para cá nunca mais parei”, conta.
Lennon saiu da região metropolitana de Porto Alegre, morou na zona rural de Viamão, para vir se estabelecer em Marcelino Ramos, depois acabou vindo para Erechim, onde mora com a família há 15 anos.
Fazer esculturas é um hobby para Lennon, uma distração, mas também um desafio. “É o que mais me dá mais prazer quando estou envolvido com madeira, criando alguma coisa. Se a pessoa me pede uma escultura do Papa, enquanto não terminar eu não paro”, afirma.
Conforme Lennon, uma escultura em madeira, por exemplo, uma carranca de um metro de altura leva em média oito horas para ser feita. Para fazer um totem de três metros de altura e 50 centímetros de diâmetro, que está na praia de Garopaba, em Santa Catarina, o escultor levou uma semana.
O artista não tem preferência pelo tipo de madeira, utiliza o que cair na sua mão, e já chegou a fazer trabalhos com abacateiro. “A melhor para trabalhar é cedro, extremamente macia, resistente, não racha e dá um acabamento muito bom”, diz.
Lennon comenta que se juntasse, nesses anos, todas as peças que produziu elas não caberiam num ginásio. “É muita coisa e está espalhada pelo Brasil, no Paraná, Mato Grosso, Acre, Rio de Janeiro”, diz. Ele lembra de um fato curioso, no início, ocorrido há mais de 20 anos, no museu de Porto Alegre, quando começou a expor sua arte. “Fiz um corpo de um touro de 50 centímetros e queria expor nesse museu. Para dar certo, deixei numa manhã a peça lá dentro e fui embora. Uns 15 dias depois ela estava exposta numa sala como autor desconhecido. Foi a maneira que achei para que as pessoas vissem o que eu produzia”, conta.
O escultor é um autodidata aprendeu a arte do entalhe sozinho, praticando. “Fui fazendo e aprendendo, o primeiro toco que entalhei tinha um metro e acabou numa peça de 30 centímetros. Hoje faço entalhe numa lasca de madeira, não tenho referência de artista e nem fui buscar, o meu estilo é esse, sem copiar de ninguém, sem muita pretensão”, diz.
Segundo ele, quando está esculpindo, Lennon não tem um desenho pronto, trabalha no improviso, as formas vão sendo moldadas “conforme as lascas vão saindo e a lixa vai pegando, não é nada programado, e tudo é feito manualmente”. Lennon gosta muito de reaproveitar materiais descartados, e quando sai à rua está sempre de olho. “Se enxergar alguma coisa que vai me servir eu carrego”, diz. Um exemplo, é o Rancho do Angico, galpão que ele construiu no fundo do lote onde mora, em parceria com seu grande amigo Flávio Schommer, reaproveitando materiais e muita criatividade.
“Teve um caso em que mandei seis carrancas para o Paraná de toco inteiro e saiu uma diferente da outra, porque não sai igual. Esse tipo de arte não tem como repetir, cada objeto produzido é único”, afirma.
Vida de escultor
Lennon ressalta que em Erechim é muito difícil o artista sobreviver da sua arte. “Eu não saio e divulgo o meu trabalho, faço minhas coisas para mim e para pessoas que me procuram. Tem regiões do Brasil em que se colocar uma pedra em cima da outra vende. A questão é cultural. O artista muitas vezes prefere não vender a peça”, afirma.
Ele prefere ter o seu trabalho, a sua rotina e fazer escultura como um hobby. “Assim vivo mais tranquilo e não me coloco no compromisso de viver daquilo. Continuo produzindo, sou cabeleireiro, tenho clientela, faço meus horários. Não tenho pretensão de ser reconhecido, não tenho necessidade disso. Aliás, quando as pessoas são capazes de fazer alguma coisa e fazem por capacidade, por gostar, elas não dependem das outras”, diz.
Ele, acrescenta, que as pessoas seriam mais felizes se fizessem o que gostam, todo trabalho seria muito melhor aproveitado, muito mais bem-feito se realmente gostassem daquilo que estão fazendo. “É o que procuro fazer, gosto de ser cabeleireiro e tenho paixão por entalhe, arte, escultura. Nas horas vagas procuro me ocupar com a arte, curto as minhas histórias, minhas coisas, sou apaixonado por estar em casa, e aí fiz esse mundo para mim”, observa.