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Cultura

Filhos de Nazistas

Livro lançado no Brasil em 2018 traz impressões e segredos de crianças que cresceram marcadas pelos crimes cometidos por seus pais durante a Segunda Guerra Mundial

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Filhos de Nazistas
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Neste domingo (27), celebra-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

A data foi instituída pela ONU em 2005 e faz menção à libertação do campo de extermínio de Auschwitz pelas tropas soviéticas, em 27 de janeiro de 1945.

O momento, todavia, serve, além de prestar justa homenagem às vítimas, para lembrar/alertar as atuais e futuras gerações a respeito dos horrores cometidos pelo regime totalitário que governou a Alemanha entre 1933 e 1945. O recado é claro: não podemos esquecer jamais o que aconteceu, na esperança de que a barbárie não se repita.

Sob a liderança de Adolf Hitler, que conduziu a Europa e o restante do mundo à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mais de 50 milhões de vidas foram ceifadas, sendo 6 milhões de judeus assassinados naquele que é o maior genocídio do século XX, conhecido como Holocausto (ou Shoá, em hebraico).

Reconhecendo-se a data como mais uma ocasião para falarmos dos perigos das ideias extremistas - que voltam a ameaçar o mundo, a partir da ocupação de postos de poder por lideranças de viés nacionalista e totalitário em diversos países - o Jornal Bom Dia traz uma breve resenha do livro 'Filhos de Nazistas', lançado no Brasil em 2018 pela editora Vestígio, de autoria da advogada e escritora de origem russa, francesa e alemã, Tania Crasnianski - neta de um ex-oficial da Força Aérea Alemã, durante a Segunda Guerra, que sempre se recusou a falar daqueles anos.

Com o propósito de compreender as implicações presentes desse passado obscuro, Tania reuniu diferentes arquivos (entrevistas, processos judiciais, livros, cartas), revelando o retrato de oito filhos da elite do nazismo e as indeléveis marcas deixadas na vida de cada um e na própria Alemanha do pós-guerra.

Por ordem de apresentação na obra, a autora traz a história de:

- Gudrum Himmler: a 'Püppi' (princezinha) do nazismo, filha do braço direito de Hitler, Heinrich Himmler, um dos responsáveis diretos pelo Holocausto, uma vez que coube a ele a construção dos campos de extermínio. Ao longo da vida, Gudrum mantém-se agarrada a duas convicções: a inocência do pai (em relação aos crimes que lhes foram imputados) e aos ideais nazistas.

- Edda Göring: filha de Hermann Göring que, por ocasião do nascimento da pequena, em 2 de junho de 1938, mandou 500 aviões da Luftwaffe (a Força Aérea Alemã) sobrevoarem Berlim. Assim como Gudrum, Edda é muito ligada ao pai, fato que, após a morte deste, a fez manter-se fiel à memória do progenitor e aos credos defendidos por ele. As duas, de igual modo, tem apenas um nome a culpar por tudo o que aconteceu: Adolf Hitler. Cabe notar que tanto Himmler quanto Göring se suicidaram - o primeiro após ser capturado pelos britânicos, em 1945, e o segundo antes da consumação da pena de execução imposta no julgamento de Nuremberg, após o fim da Guerra, em 1946.

- Wolf Hess: filho de Rudolf Hess, o último criminoso da Guerra - preso pelos britânicos e mantido sob cárcere desde a malograda tentativa de, em voo solo, tentar celebrar a paz com a Inglaterra, em maio de 1941. No julgamento de Nuremberg, Rudolf seria condenado à prisão perpétua por crimes contra a paz. Ele morreu na prisão de Spandau, sob circunstâncias estranhas, em agosto de 1987, aos 93 anos. E a história deste pai 'mal compreendido' que o filho busca resgatar ao longo de sua existência, enquanto clama pela inocência e liberdade de Rudolf. Liberdade esta que ambos jamais veriam.     

- Niklas Frank: filho de Hans Frank, advogado mais tarde conhecido como o 'açougueiro de Cracóvia' por ter exercido o cargo de governador-geral da Polônia ocupada pela Alemanha. É o responsável pelos guetos judaicos. Em seu setor dois milhões de judeus foram mortos nos campos de Belzec, Sobibor e Treblinka (Auschwitz está localizado em outro setor). Niklas é obstinado pela verdade - elemento que o faz detestar o pai, que segundo ele era 'um pobre idiota!' que só se interessava por joias, castelos e belos uniformes.

- Martin Adolf Borman: filho de Martin Borman, a iminência parda do III Reich e secretário particular de Hitler. Martin Adolf (o Adolf no nome não é coincidência) é o mais velho entre nove irmãos e tem pouco contato com o pai, seguindo carreira distante da dele. Vira padre para mais tarde abandonar a batina em troca do amor. Apesar de reconhecer os crimes cometidos pelo progenitor, diz que não o odeia, sem, no entanto, conseguir perdoá-lo.

- Os filhos Höss: os descendentes do comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, cresceram seguindo o pai em seus afazeres, tendo vivido boa parte da infância nos campos de concentração e extermínio gerenciados por Rudolf - morto por enforcamento justamente em Auschwitz, após condenação em Nuremberg. A triste ironia é que enquanto se derrama em amores pela família; no 'trabalho', Höss comete o mal absoluto sem pestanejar. Esta incongruência afeta os filhos de diferentes maneiras e recai especialmente num dos netos que o qualifica como um 'ditador violento e antissemita'.      

- Os filhos Speer: Albert Speer era um nazista 'diferente', diziam. O 'arquiteto do diabo' legou à linhagem a classe que sempre lhe foi peculiar. Entre seus filhos, destacam-se Albert Speer Jr. (morto em 2017), arquiteto como o pai e o bisavô; e Hilde Schramm - que nesta semana foi laureada em Berlim graças a seu trabalho na Fundação, que ela mesmo criou, para promover jovens judias na Alemanha. Detalhe: o capital inicial da instituição veio da venda de três obras que Hilde, de 82 anos, herdou e que teriam sido roubadas pelos nazistas durante a Guerra.

- Rolf Mengele: filho do 'anjo da morte', o médico Josef Mengele, Rolf (que é advogado) teve pouco contato com o pai - responsável por experimentos macabros em humanos (especialmente crianças) e, também, por decidir entre a vida e a morte de centenas de milhares de prisioneiros em Auschiwtz. A última vez que Rolf viu o médico foi em São Paulo, em 1977, onde Josef - morto em 1979 - se escondia desde 1962. Após o encontro, o filho declarou: 'O fato de ser meu pai não muda nada. Para mim, o que aconteceu lá (em Auschwitz) foi contrário a qualquer ética, a qualquer moral e lança uma sombra terrível sobre a natureza humana'.

 

Escolhas

Os relatos trazidos por Tania Crasianski martelam a mente de seres médios/normais. Afinal, o que dizer dos filhos de nazistas cujo percurso é evocado na obra? Foram eles também 'vítimas' a serem lembradas neste domingo, 27?

Difícil afirmar. O certo é que todos dividiram uma herança comum: o extermínio de milhões de inocentes praticado por seus pais.

Se houve aqueles que perdoaram, entenderam e até tentaram defender os atos abjetos dos pais nazistas (em regra, os filhos mais próximos na infância), houve também os que mais do que trocar de sobrenome, escolheram lutar contra a barbárie e o mal.

Particularmente, acredito que sempre cabe a nós escolher. É preciso, porém, discernimento - e, muitas vezes, certo distanciamento. É preciso equilíbrio, e boa dose de empatia. Creio que foi com este sentimento que Tania Crasianski construiu a sua pesquisa, oferecendo aos leitores importante resgate da memória de um tempo que, esperamos, jamais se repita.

 

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