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Cultura

“História brasileira em chamas”

Colocação de historiadora resume o sentimento de perda com o incêndio no Museu Nacional e provoca reflexões sobre a necessidade de preservar a história

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Museu Nacional
Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Agência Brasil

A semana iniciou marcada pela comoção nacional após o incêndio que destruiu o Museu Nacional no Rio na noite do último domingo (2). Bicentenário, o espaço que reunia mais de 20 milhões de itens, divididos em coleções de paleontologia, zoologia, botânica, antropologia, arqueologia, entre outras, foi tomado pelas chamas. O fogo tomou conta não somente da edificação localizada na Quinta da Boa Vista, São Cristóvão-RJ – que já foi residência oficial da família imperial brasileira – como também de itens de grande importância histórica, a exemplo de Luzia, o fóssil humano mais antigo já encontrado nas Américas, com cerca de 12 mil anos.

Além da comoção, o incêndio também provocou reflexões sobre a necessidade de preservação da história e de investimentos em órgãos responsáveis por este trabalho. Considerado “pai de Luzia”, arqueólogo e antropólogo Walter Neves afirmou em entrevista ao Estadão que o ocorrido tratou-se de uma “tragédia anunciada”, uma vez que “o poder público abandonou completamente o museu há décadas”. Ao classificar o incêndio como uma "tragédia para a humanidade”, ainda definiu o fato como algo que “será sempre uma mancha enorme para o Brasil no mundo inteiro".

Professora de História lamenta perda causada pelo incêndio

Doutoranda em História e professora na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Débora Clasen de Paula, avaliou a perda definindo-a como uma “catástrofe”. “Quando ocorre uma catástrofe como essa entramos meio que num processo de "inventário", levantamento de peças, artefatos e objetos que constituíam o acervo... Impossível não se chocar com a queima de um lugar de memória. Porém, muito mais do que isso que foi incinerado, não são só ‘peças de museu’, são seus significados, trata-se de parte da história brasileira em chamas. Trata-se de ver reduzido a pó uma forma de acesso ao nosso passado, uma forma de produzir conhecimento sobre ele. Trata-se de interromper todas as visitas da população que iriam ao Museu, das escolas que fariam deste espaço um lugar privilegiado para aprender de forma crítica a história. Trata-se da queima da história indígena, trata-se da queima da nossa história.

 

“Impossível não se chocar com a queima de um lugar de memória”

Questionadas sobre que medidas seriam fundamentais para evitar tragédias deste porte no que se refere à preservação da história, a professora destaca a importância de iniciativas de prevenção. “Museus como o Museu Nacional, no Palácio de São Cristóvão, demandam maior cuidado na manutenção. Uma instituição que completou 200 anos e que sofria com a carência de recursos para salvaguardar um acervo sob sua guarda que era de valor inestimável... não se tem como recuperar isso”, pontuou, ao recordar que no ano de 2014 visitou o local junto com uma turma de estudantes do curso de licenciatura em História da UFFS. “Da última vez que visitamos o Museu Nacional - em um viagem de estudos da disciplina de História do Brasil II em novembro de 2014 - era visível que a instituição funcionava administrando poucos recursos, o que provavelmente só se agravou de lá para cá. É com muita tristeza que assisti as chamas tomarem conta do patrimônio científico brasileiro”, completou.

 Também historiadora, Neusa Cidade Garcez diz ter ficado abalada com o ocorrido. “Não existem palavras que possam definir e expressar a dor que senti ao ver a devastação que o fogo provocou no Museu nacional. Nas inúmera s visitas que fiz ao local, cresci em conhecimento e como ser humano. As milhares de peças no museu esperavam um mecenas que as protegesse do descaso, da insensibilidade e da falta de cultura das ditas autoridades que se arrogam a dirigir um gigantesco acervo que condensa o patrimônio de várias pátrias e pesquisas de centenas de pessoas dedicadas a preservar divulgar o saber e as conquistas dos sábios de várias civilizações. Sinto vergonha ao ler que o mundo comenta sobre nossa perda. E sinto asco pelos seres que permitiram que isso acontecesse”, sentenciou.

“Perdemo-nos a nós mesmos no
 incêndio do Museu Nacional”

O historiador Gerson Severo Egas também lamentou as perdas do incêndio no museu, e propôs uma reflexão. “Escolha um dos vinte milhões de itens que constituíam o acervo do Museu Nacional, qualquer um. Imagine-o à sua frente, ou na palma de sua mão. O que ele é? Ele é uma chave para o passado, um artefato portador de memória e de história (e, potencialmente, de História): um fóssil, um caco de cerâmica, um texto. Ele está esperando que lhe façamos as perguntas certas, e esperando também que com alguma responsabilidade científica, teórica e metodológica, saibamos posicioná-lo como um ladrilho precário do mosaico complexo, dinâmico e sempre incompleto (sempre novamente interrogado, reconstruído, ressignificado) de uma tentativa de ensaio de explicação a respeito de quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Agora multiplique esse item por vinte milhões e obtenha incontáveis outros milhões de perguntas que não serão feitas, hipóteses que não serão formuladas, possibilidades de resposta(s) que não poderão ser postuladas e consideradas”, pontua, ao destacar que “fragilizamo-nos em nossa perspectiva humana ao diminuirmos nossa capacidade de (re)interrogação do passado, encolhemo-nos em nossa necessidade vital de construção de repertório para ler o presente e imaginar o futuro, fraturamos nossas identidades mantidas em pé a muito custo. Perdemo-nos a nós mesmos no incêndio do Museu Nacional. E sobre politizarmos ou não a questão? Toda politização que pudermos fazer será pouca”, completa.

Alguns dos itens

Um dos mais importantes itens era um fóssil humano, achado em Lagoa Santa, em Minas Gerais, em 1974. Batizado de Luzia, fazia parte da coleção de  antropologia. Trata-se do fóssil de uma mulher que morreu entre 20 e 25 anos e seria a habitante mais antiga das Américas.

Outra preciosidade é o maior meteorito já encontrado no Brasil, chamado de Bendegó que pesa 5,36 toneladas. A pedra é de uma região do sistema solar entre os planetas Marte e Júpiter e tem mais de 4 bilhões de anos. O meteorito foi achado em 1784, no sertão da Bahia, na localidade de Monte Santo. Quando foi encontrado era o segundo maior do mundo. A pedra integra a coleção do Museu Nacional desde 1888 e segundo informações dos Bombeiros, foi um dos itens que se manteve intacto no Museu.

- Dom Pedro arrematou em 1826 a maior coleção de múmias egípcias da América Latina. São múmias de adultos, crianças e também de animais, como gatos e crocodilos. A maioria das peças veio da região de Tebas.

Arquivo Histórico de Erechim

Digitalização de documentos faz parte do esforço de preservação

Com um acervo gigantesco de documentos, fotografias, processos, jornais, gravações e itens que fazem parte da memória de Erechim e região, o Arquivo Histórico Municipal Juarez Miguel Illa Font, de Erechim, vê na digitalização uma das alternativas de proteção aos materiais acondicionados. A coordenadora do local, Maria Carmencita Fernandes, explica que além de todo o cuidado no manuseio dos itens, uma equipe se reveza na tarefa de organizar os materiais de modo que sejam preservados e também de digitalizá-los.

Segundo a coordenadora, enquanto instituição o Arquivo Histórico existe desde o ano de 1989, porém, o trabalho de acondicionamento do acervo é realizado desde a década de 60 no município. “Aqui temos materiais desde a época anterior à colonização, por isso a importância de manter toda essa memória preservada e de evitar que uma tragédia como a que ocorreu no Museu Nacional aconteça, pois são perdas irreparáveis.  Antes de termos um espaço específico para guardar tudo isto, os itens ficavam junto à biblioteca. Com o tempo viu-se a necessidade de ter um espaço somente para este fim e então criou-se o Arquivo Histórico para reunir exclusivamente os materiais que fazem parte da história do município e de modo que permaneçam preservados”, explica. Ela cita também que há um projeto ainda incipiente de criação de um museu junto ao arquivo, já que há o desejo de reunir mais itens históricos para além do que o arquivo já abriga.

Esperança em cofres e armários

Conforme matéria divulgada na tarde de ontem pela Agência Brasil, pesquisadores do Museu Nacional nutrem a esperança de que parte do acervo, justamente peças mais raras e valiosas, possa ter sido salva do fogo dentro de cofres e armários de aço especiais. Entre essas, está o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, com mais de 12 mil anos.

Eles reconhecem que o trabalho não será fácil, pois o interior do prédio ainda está muito quente e os dois andares superiores desabaram sobre o térreo, formando uma grossa camada de cinzas, carvão, ferros retorcidos e tijolos. “As pessoas foram de manhã tentar achar a Luzia, mas parece que ela estava em uma caixa e tem muito escombro. A gente não sabe se dentro dessa caixa ela possa ter resistido. Tem que haver a perícia, para liberar o prédio e os pesquisadores entrarem de fato e retirar os escombros. A parte lá de trás, do departamento de geologia e paleontologia, parece que sobrou alguma coisa”, disse a vice-diretora do museu, Cristiana Serejo.

Os esqueletos de dinossauros que estavam em exposição eram, em sua maioria, réplicas, segundo o pesquisador Helder de Paula Silva, um dos responsáveis pela coleção de paleontologia. Grande parte, com maior valor científico, ficava dentro de um armário de aço compactador, que é fechado e pode resistir a impactos e a altas temperaturas, desde que não sejam extremos.

Segundo Cristiana, alguns departamentos guardavam peças mais valiosas dentro de cofres que podem ter resistido às altas temperaturas. “Existe [esta possibilidade]. A gente vai ter que aguardar. Mas a coleção de entomologia, de insetos, que ficava no terceiro andar, não resistiu. Isto foi uma perda gravíssima. Estava em armários compactadores, mas como desabaram, foi um impacto muito grande”, afirmou Cristiana. Ela estima que serão necessários, pelo menos, R$ 15 milhões para iniciar a restauração do prédio.

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