No longínquo ano de 1928 em Erechim, um grupo de amigos descendentes de italianos tinha por costume se encontrar para contar histórias, jogar cartas, mora, cantar e preparar os pratos típicos da gastronomia de seu país de origem. Esse hábito, além de reforçar vínculos de amizade e manter vivas as tradições, ajudava a todos a aliviar a saudade da Itália. Os encontros aconteciam na casa de Giorgio Corradi e a cantoria era comandada por Nei Miollo. Sempre saudoso, Atílio Pagliosa era um dos líderes do grupo, e tinha como marca seu espírito alegre e expansivo.
Assim surgia o Grupo Del Cavicchio, que mais tarde passaria a se chamar Turma do Gillé e, atualmente, Grupo do Gillé, que comemora em 2018 seus 90 anos de história, sendo possivelmente o grupo cultural mais antigo em atividade em Erechim. Do primeiro nome ao que utiliza ainda hoje, um dos integrantes, Ardolino Palavicini, lembra que a mudança se deu devido ao período de proibição de falar em italiano, na década de 40. “A história que chega até nós é que por causa da guerra, era proibido falar em italiano e por isso não podia se chamar Grupo Del Cavicchio. Com isso, questionou-se o intendente que proibiu o uso do nome anterior sobre qual nome poderia ser utilizado. Aí ele falou do gillé, que era usado por todos e caracterizava o grupo. Mas gillé significa colete em italiano, então acabou que trocaram seis por meia dúzia”, brinca Palavicini, vestido com o gillé, que ainda hoje é uma das marcas do grupo.
Inicialmente formado só por homens, o grupo do Gillé foi ganhando prestígio e era convidado com frequência para apresentações. “Mas não se cobrava nada, apenas o brodo e o vinho”, relembra Palavicini, que conviveu com parte dos fundadores e viu muitas histórias divertidas e até mesmo curiosas serem repassadas durante os encontros marcados pela cantoria em italiano. Anos mais tarde, em 2002, quando tornou-se presidente da entidade, já preocupado com a dissolução de integrantes, sugeriu a entrada de mulheres no coral. A proposta foi vista inicialmente com certa resistência, mas o desejo de manter viva a tradição e a história do Gillé acabou pesando mais e todos concordaram.
Foi nesta época que Margarida Menegati, conhecida carinhosamente como Lola, entrou no grupo. “Inicialmente apenas as esposas dos integrantes foram convidadas, pois era um grupo bastante restrito e fechado. Apesar de nem cogitar inicialmente fazer parte, justamente por saber que era apenas para os homens, tinha vontade de cantar também, então assim que abriu-se o espaço às mulheres, eu entrei. Com o tempo, outras mulheres foram entrando e somando com a história do Gillé”, lembra a integrante, que ainda hoje faz parte do grupo e tem orgulho de contar história do grupo.
Cantoria como essência
Desde seus primórdios, o intuito do grupo era aliviar a saudade da Itália com os cantos populares naquele país, quando todos se reuniam para, em muitas vozes, unirem forças e também perpetuarem a cultura italiana. Mais tarde, o grupo passou a aperfeiçoar técnicas e hoje, ensaia semanalmente o canto coral nas terças-feiras sob a regência de Gleison Juliano Wojciekowski, para as apresentações que faz com frequência em festivais em Erechim e demais municípios do Estado, levando adiante a cultura que motivou seu início. Ainda assim, a cantoria recreativa que caracteriza o grupo desde que foi fundado, segue viva quando nas sextas-feiras, os integrantes ainda se reúnem para comemorar, relembrar e reviver a história do Gillé.
Momentos importantes
Primeira mulher a presidir o grupo e já em sua segunda gestão, a atual presidente do Gillé, Roseli Adami Tobaldini destaca ainda que nesta longa trajetória de nove décadas, muitos momentos marcaram a história do grupo, envolvendo além do canto, também a gastronomia, que sempre esteve presente na vida do Gillé. Um exemplo foi a Festa da Polenta, realizada no ano de 1986 no parque de Exposições da Frinape, quando mais de 1,5 mil pessoas participaram. Ela cita também o jantar típico da porchetta, um dos mais populares da tradição italiana.
A conquista da sede do grupo, localizada no Bairro José Bonifácio, resultado do esforço conjunto de muitos envolvidos também é um dos momentos marcantes na história do Gillé que, segundo Roseli, se reinventa a cada ano mantendo viva a tradição que o caracteriza.
Orgulhosa do cargo que ocupa e otimista pelo futuro do coral – que conta com 32 coralistas e é um dos únicos do Estado a cantar em quatro vozes – Roseli destaca que neste ano a entidade está fazendo um trabalho de resgate dos sócios, de lembrança das histórias e, principalmente, de homenagens a quem contribuiu com a história do Gillé, além de forte atuação junto à comunidade. “É uma história muito rica que merece ser preservada e valorizada. Todos que passaram pelo grupo contribuíram a sua maneira e deixaram seu legado”, completa.