Foram elas que trouxeram, no início do século XX, os primeiros imigrantes que povoariam e dariam novos contornos e histórias para o Alto Uruguai Gaúcho. Foram elas que, por muito tempo, alavancaram o crescimento de Erechim e região, ao servirem de ligação com o sudeste do país. De símbolo de desenvolvimento, porém, a malha ferroviária que ainda hoje faz parte do cenário da cidade, transformou-se em sinônimo de descaso e abandono.
Neste ano completam-se duas décadas desde que o dia que a região Norte do Estado via o último trem passar pela estrada de ferro. Conforme explica a historiadora Elisiane Gnovatto em seu artigo intitulado Nos Trilhos da Memória: 20 anos de ferrovia abandonada, “em 1997 o governo federal iniciou uma onda de desestatizações, dentre elas, da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA). A empresa que ganhou, então, a concessão da Malha Sul por 30 anos imediatamente desativou o trecho da ferrovia Passo Fundo – Marcelino Ramos. E apesar de ações públicas serem movidas contra a empresa, não se tem respostas e/ou expectativas para a retomada do trajeto”.
Foi partindo destas considerações que o Bom Dia foi em busca de respostas sobre o futuro da malha ferroviária que atravessa parte da região. E esse futuro não se resume unicamente à expectativa de que um dia os trens possam voltar a circular por esses caminhos, já que o trecho ferroviário Passo Fundo – Marcelino Ramos é o único desativado na região sob a alegação de não ser viável economicamente. Para além das estradas de ferro que hoje vêm sendo cobertas pela natureza e mesmo pelo asfalto em seus trechos urbanos, restaram também estações ferroviárias.
Um projeto audacioso de turismo para a linha Erechim-Marcelino Ramos
No ano em que completam-se duas décadas que o último trem passou pelo Alto Uruguai, quatro municípios da região se uniram em torno da criação de um projeto audacioso envolvendo a malha ferroviária e as estações férreas presentes na região. Mobilizados pela a Associação Amigos da Ferrovia, de Marcelino Ramos(AAFMR), representantes daquele município, de Erechim, Gaurama e Viadutos vêm se reunindo há três meses para levantar informações e dados que possam embasar um projeto para que a linha Erechim-Marcelino Ramos possa receber um trem de turismo, que passaria pelos trilhos e estações das quatro cidades.
Ainda em seus primeiros passos, a mobilização já contabiliza três encontros nos quais, segundo o presidente da (AAFMR), Jonas Kerber, a comissão – da qual fazem parte desde prefeitos, até secretários, vereadores, arquitetos e estudiosos do tema – têm se dedicado a levantar dados. “É tudo muito preliminar ainda, pois trata-se de uma mobilização a longo prazo. Por ora, o que fizemos foi dar o primeiro passo, reunindo esses municípios em torno de algo que é comum a todos: o interesse de preservar todo esse patrimônio ferroviário presente na região e o entendimento de que isso só será possível com a operação de um trem de turismo”, explica.
Kerber adianta ainda que a ideia é que o grupo possa desenvolver um estudo de viabilidade econômica com levantamento de custos. “Estamos nos reunindo para que possamos juntos elaborar uma cartilha trazendo dados de como poderíamos efetivar esse trem de turismo na região, e apontando questões como, por exemplo, como ele seria utilizado e quando e onde passaria. De modo geral a ideia é que possamos juntar a maior quantidade de informações para depois consolidar um projeto que atenda às necessidades da região”, pontua.
Depois desta etapa, o presidente da AAFMR afirma que o grupo pretende buscar o Ministério Público para apresentar as propostas e então tentar viabilizar uma reunião com a empresa Rumo, subsidiária da ALL. “A partir daí tentaremos fazer uma parceria, para que juntos consigamos nos mobilizar para fazer esse trecho funcionar. Por se tratar de uma parceria, poderão ser discutidas questões que envolvam o papel de cada um, como por exemplo, na oferta de mão de obra. De modo geral a ideia é nos apresentarmos como parceiros, para que a gente possa de maneira unida e sistemática pleitear a volta do trem para a região”, declara.
Kerber destaca porém, que por ser um projeto grandioso, estes são apenas os primeiros passos, o que significa que as expectativas possam demorar para serem alcançadas. “A gente sabe da vontade da população de ter um trem de volta na região e entende que esta seria uma iniciativa de grande aceitação. Porém, trata-se de um processo bastante demorado e que além de envolver grandes custos, exige uma forte mobilização. Estamos apenas no começo”, completou.
As estações e seus usos atualmente
A estação de Gaurama, como destaca Elisiane, “abriga desde 2006 o Museu Municipal Irmã Celina Schardong e a partir de 2014 reformas elétricas e estruturais no espaço interno e externo foram sendo implantadas. A reestruturação foi finalizada em 2016, mas mantém-se em permanente conservação e qualificação, servindo como referência para muitos municípios”.
Outro exemplo positivo na região é Marcelino Ramos que se utiliza dos bens ferroviários para fins de turismo. Todas as semanas são realizados passeios turísticos de Maria Fumaça, percorrendo um trajeto de cerca de uma hora, com saída da Estação Férrea de Marcelino até o interior de Piratuba-SC. Além da nostalgia de viajar na locomotiva pela estrada de ferro, música ao vivo, brincadeiras, bebidas, salgadinhos e fotógrafo estão entre as atrações do passeio que movimenta dezenas de pessoas semanalmente.
Denominado “Trem das Termas”, a Maria Fumaça é operada pela regional de Santa Catarina da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF). O Trem das Termas percorre um trecho de 25km da Ferrovia do Contestado que fazia parte da grande Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande.
Já a Estação de Viadutos passou recentemente por um processo de restauração. Foram realizadas reestruturações internas e externas, com o cuidado para que o espaço não perdesse sua originalidade. Inaugurada no dia 25 de outubro de 1910 pela Cie. AuxiliaireChemins de FerauBrésil, empresa belga que tinha a concessão para construir a ferrovia na região do Alto Uruguai, a Estação chegou a abrigar, em 2015, uma Feira do Livro.
Já a estação férrea de Erechim hoje abriga, em parte de suas dependências, atividades culturais, servindo de local de ensaios para grupos como a Associação de Capoeira Angola Cultura Popular e o grupo cultural Avanti. Entretanto, a maior parte de seus espaços se encaixa no que Elisiane pontua em outro trecho de seu trabalho quando se refere às estações: “danificadas e em estado de abandono”.
Conforme destaca a Prefeitura de Erechim, no ano de 2000, a estação foi tombada pelo município e, em setembro de 2017, foi assinado o termo de cessão de uso gratuito de bem imóvel pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “A ideia é restaurar o prédio e, para isso, será feito um projeto para angariar recursos do próprio Instituto e também por meio de parcerias público-privada. O intuito é de que a Estação Férrea de Erechim abrigue um café cultural, sebo de livros, departamento de turismo e que uma das salas esteja disponível para realização de saraus literários, apresentações artísticas e exposições de artes itinerante”, pontuou o diretor técnico de Obras do município, Harrysson Testa, que elencou ainda a mobilização dos municípios em torno da viabilidade do trem de turismo
Outras duas estações da região – a de Baliza em Gaurama, e a de Cannavial em Viadutos – foram demolidas ainda em 1997.
A ferrovia
O documento referente à Lei Municipal nº 3.311, de 19 de setembro de 2000, que considera patrimônio histórico e cultural do município a mancha ferroviária de Erechim traz aspectos históricos acerca da construção da estrada de ferro. O material, disponível no Arquivo Histórico municipal, destaca que “Em 1907, pelo Decreto Federal nº 6673, as linhas férreas a construir e explorar entre Passo Fundo e o Rio Uruguai foram incorporadas à Cia Auxiliare(...). Em 1909, o Decreto 7643 aprova os estudos definitivos e o orçamento do trecho final, no qual situa-se a Estação Erechim, inaugurada em 1910”, informa o documento.
Mais de um século após ser construída, a estrada de ferro que colaborou para o desenvolvimento de Erechim ainda faz parte do cenário da cidade. Em alguns pontos coberta pela vegetação e, em outros até pelo asfalto, a malha atravessa o município e provoca não somente recordações da época em que o trem por aqui passava, mas também planos para o futuro.
Além do projeto de trem de turismo, recentemente assumido pelos quatro municípios da região, civis também cogitaram alternativas para o uso da malha ferroviária. O arquiteto Arthur Peruzzo, por exemplo, aposta na estrada de ferro como uma forma de revolucionar o transporte. Ele destaca que a ferrovia "abraça" a cidade, já que circunda boa parte do contorno da área urbana. "O trilho abarca praticamente toda a cidade. Se incluísse no projeto um segmento que desse a volta por trás da BR, quase poderíamos fechar um anel. Só que teríamos que construir ferrovia para fazer essa anel, o que seria mais complicado. Ainda assim, ter esse ramal circundando todo o centro da cidade já seria fantástico, por que a área mais habitada e concentrada é essa", destacou em entrevista recente ao Bom Dia.
Seus planos levam em conta ainda polos de ensino presentes em Erechim, já que nos dois extremos da linha férrea, estão localizadas a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) de um lado, e a URI do outro. "Esses polos universitários vão crescer, o que vai estimular e favorecer o crescimento da cidade nessas regiões. A cidade só ganha", afirma Peruzzo, que vê uma oportunidade para outras pequenas intervenções. "Pode ter essa ferrovia como um sistema de transporte, e na margem pode-se fazer um caminho para as pessoas caminharem, uma ciclovia", projeta.
Embora reconheça a vantagem de já existir toda a estrutura da linha férrea - o que representa uma economia considerável para o projeto, o arquiteto vê alguns problemas que considera de suma importância uma resolução o quanto antes. "A nossa ferrovia está decrépita, os dormentes estão podres. É preciso uma reforma, trocar os dormentes e criar um sistema de trem para isso. Mas o que é mais caro para implantar, já está pronto. E a gente está deixando isso apodrecer", destaca o arquiteto, que lamenta o fato de o Brasil ter ficado para trás nesse tipo de transporte em relação a países desenvolvidos. "O trem tem uma característica de transporte muito boa. Houve uma época em que estávamos parelhos com os trens de Europa e Estados Unidos. Mas aí nós paramos, não tivemos interesse nisso e o que aconteceu? Eles se desenvolveram".
ANTT se mostra aberta a projetos concretos para uso da malha ferroviária
Diante das possibilidades apontadas em relação à necessidade de preservação e/ou uso da malha ferroviária e das estações presentes em Erechim e região, o Bom Dia foi em busca de respostas. Junto ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), proprietário dos bens da RFFSA - entre eles as linhas férreas do RS, a informação repassada à reportagem foi de que “a definição sobre continuidade da operação ou desativação da linha ferroviária é atribuição da ANTT, que decide com base em um estudo sobre a viabilidade econômica da operação, a ser apresentado pela concessionária operadora do trecho ferroviário”.
Questionado sobre possibilidades de uso da malha ferroviária, o departamento destaca que “caso venha a ser determinada pela ANTT, o DNIT terá que buscar usos alternativos, sempre em parceria com os municípios, para implantação de trem de turismo, VLT, acessos rodoviários e outros instrumentos de utilidade pública. Em relação às edificações (estações e armazéns) o DNIT tem convênios com várias prefeituras para diversos usos públicos desses patrimônios.
Já a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), responsável pela definição sobre continuidade da operação ou desativação das linha ferroviárias, demonstrou abertura para possíveis proposições para uso dos ramais, a exemplo dos citados nos projetos desta matéria. Confira a entrevista na íntegra:
BD. Qual é a responsabilidade do DNIT com relação à rede ferroviária nacional e, em especial, a malha ferroviária presente no Alto Uruguai gaúcho?
O DNIT é o proprietário dos bens que pertenciam à RFFSA e hoje estão arrendados às Concessionárias Ferroviárias de Transporte de Cargas. Os bens arrendados estão sob a responsabilidade de manutenção e, em caso de término da concessão ou devolução, os bens que sofreram danos ou falta de manutenção deverão ser ressarcidos pelas Concessionárias.
BD. Há planos para aproveitamento ou liquidação dessa estrutura nacional e, especificamente, regional?
O planejamento do transporte ferroviário é atribuição do Ministério dos Transportes, a ANTT tem como atribuições acompanhar e fiscalizar a prestação do serviço de transporte ferroviário de cargas e o cumprimento dos contratos de Concessão. A qualquer momento as Concessionárias podem propor a devolução de trechos, porém, isso pode demandar uma revisão do equilíbrio econômico financeiro do contrato.
BD. Existe algum estudo que esclareça os motivos do pouco uso do transporte ferroviário no Brasil e a desativação de ramais importantes como a ferrovia que ligava o estado de São Paulo-SP com a cidade de Erechim-RS?
As concessionárias possuem autonomia para decidir a melhor forma de atender às demandas por transporte ferroviário. Os conflitos e possíveis desatendimentos são tratados pela ANTT sob demanda, por meio de arbitragem. Há fatores complexos em relação ao transporte ferroviário no Brasil, ligados ao tipo de produto, direção de fluxo, localização dos portos e peculiaridades geográficas, que impactam fortemente o sistema ferroviário nacional. Dentre eles, a grande utilização das rodovias para escoamento de cargas. A ampliação do transporte passa por um macro planejamento e não se resolverá apenas por meio das concessões ora existentes.
BD. A ferrovia presente em Erechim e Gaurama não recebe linha alguma de trem há 20 anos. A possível retomada de linhas comerciais necessitaria algum tipo de investimento? Qual?
Há um complexo equilíbrio econômico financeiro a ser alcançado para que determinadas linhas sejam reativadas. O fato de estarem sem transporte, geralmente, denota que são antieconômicas. Os investimentos em ferrovia são muito altos e de retorno muito lento, por isso, muitas vezes as concessionárias concentram investimentos em determinados corredores em detrimento de outros.
BD. A ANTT permitiria algum tipo de convênio com prefeituras ou instituições para a utilização desta malha ferroviária? Em caso de resposta positiva, qual seria o procedimento?
A ANTT está aberta às proposições da sociedade de uma forma geral. A partir de um projeto concreto, pode-se buscar formas para sua implementação. O procedimento inicial é os interessados se reunirem e exporem seus problemas, intenções e propostas, utilizando-se dos canais que a ANTT dispõe, como a ouvidoria – telefone 166 e o e-mail ouvidoria@antt.gov.br, suas Unidades Regionais e a própria Superintendência de Infraestrutura e Serviços de Transporte Ferroviário de Cargas -SUFER.