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É possível retomar de voos comerciais em Erechim?

Estudo mostra aspectos positivos para o município e para a região caso a cidade volte a ter transporte aéreo regular

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Por Najaska Martins - jornalismo@jornalbomdia.com.br
Foto Arquivo BD

Quatro anos, dois meses e duas semanas. Este foi o tempo que passou desde que o Aeroporto Federal Comandante Kraemer, de Erechim, realizou seu último voo comercial através da empresa Brava Linhas Aéreas. Desde então, quem necessita de transporte aéreo precisa deslocar-se até os municípios de Passo Fundo ou Chapecó, distantes 84 e 100 quilômetros, respectivamente.

Esta realidade aliada a percepções baseadas nas características econômicas e culturais do município, bem como seu potencial de crescimento, foram decisivas para um estudo concluído recentemente por um erechinense. A pesquisa realizada pelo consultor de negócios Giovanni Dutra Menegazzo, foi iniciada no segundo semestre de 2015 e levanta viabilidade da retomada de voos comerciais em Erechim, além de apontaraspectos positivos para o município e para a região caso a cidade volte a ter transporte aéreo regular.

Motivadores do estudo

Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina e especialista em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, Menegazzousou como base para seu estudo dados rodoviários e perfis de passageiroselencados em uma pesquisa do Sistema de Aviação Civil (SAC). “Junto a esta pesquisa, uni dados e indicadores socioeconômicos específicos de Erechim, os quais comecei estudar durante o período em que estive em Florianópolis, onde trabalhava com análise estatística, indicadores socioeconômicos e informações relacionadas aos municípios de SC”.

Embora as pesquisas nas quais Menegazzo trabalhava fossem focadas no Estado vizinho, ele relata que, por ser erechinense, aproveitava para comparar os índices dos municípios vizinhos com Erechim. “Eu até tinha uma percepção comum - digo comum porque não era estudada, embasada e fundamentada – de que Erechim tinha grande potencial, mas depois de visualizar estes dados, passei a analisar com outro olhar essa questão porque comecei a enxergar indicadores que comprovavam essa percepção”, destaca ao elencar como aspectos positivos para este potencial, não somente fatores educacionais e econômicos, mas também o fato de Erechim ser uma cidade moderna, estruturada, segura e, consequentemente, com boa qualidade de vida.

A visualização do potencial de sua cidade natal somada às suas vivências no deslocamento da capital catarinense até a cidade polo do Alto Uruguai gaúcho também foram fundamentais para a realização da pesquisa de Menegazzo. “Como minha família vive em Erechim, a cada vez que eu precisava voltar, tinha que pensar em alternativas, pois poderia vir de carro e passar horas na estrada, ou pegar um avião de Florianópolis até Chapecó, onde alguém iria me buscar, ou seja, precisava de mais um deslocamento de 100 quilômetros. Durante as viagens, sempre foi comum encontrar pessoas conhecidas que passavam pela mesma situação”, pontuou.

Fatores que apontam para a necessidade de retomada de voos

“Erechim é longe de tudo e perto de nada”. A afirmação bastante ouvida pelo autor do estudo é contrariada com suas conclusões na pesquisa. “Ouvi essa frase diversas vezes. Com minha pesquisa, eu discordo dela e comprovoo contrário utilizando como comparativo a cidade de Chapecó, por exemplo, que é mais distante de outras capitais do que Erechim. O diferencial é o acesso e é justamente por isso que eu passei a estudar sobre a viabilidade e a importância de termos voos regulares em Erechim. Por exemplo, o tempo que eu levo para ir de Erechim a Porto Alegre por via terrestre é o mesmo que eu levo para ir de Recife à Capital gaúcha por via aérea”, analisa.

Neste sentido, o trabalho do consultor levou em conta fatores como o custo por quilômetro rodado em ônibus em relação a veículo particular e avião, partindo da compreensão das tendências do transporte e comportamento dos passageiros. O especialista cita o histórico do preço médio de passagens aéreas, que segundo ele, teve uma queda acentuada. “Prova disso é que o número de passageiros do transporte aéreo em relação ao rodoviário mudou completamente, tanto que 12 anos atrás, a cada três pessoas, duas viajavam de ônibus e uma de avião. Hoje isso inverteu, e são duas que viajam de avião para uma que opta por ônibus”, destaca.

Além da democratização do transporte aéreo devido à redução do preço das passagens, a migração do transporte terrestre para o aéreo, conforme o autor do estudo, é justificada ainda por uma mudança comportamental. “Hoje em dia as pessoas buscam mais qualidade de vida, querem cada vez mais praticidade e, por isso, optam por serviços que sejam simples, não consumam tanto tempo, que sejam seguros, confortáveis e a preços acessíveis, e o transporte aéreo vai ao encontro dessa nova concepção”.

Por fim, ele cita como motivador para este cenário de mudança, o congestionamento e sucateamento das rodovias. “As pessoas em geral não se dão conta de que viajar por via terrestre envolve uma série de custos que vão além da gasolina e dos pedágios. Isso sem contar a questão dos riscos e do estresse gerado nas estradas. Analisando isto em conjunto, chega-se à conclusão de que o risco, somado a ineficiência do tempo e o custo é totalmente a favor do transporte aéreo e hoje as pessoas buscam praticidade. Elas até pagam mais para viajar bem e mais rápido”, afirma.

 

Realidade local: desmistificando conceitos

Segundo Giovanni, a retomada de voos comerciais em Erechim inicialmente aparenta ser um tema complexo, e por isso é compreensível uma desconfiança inicial. Ele afirma isso partindo dos seguintes questionamentos: “Há demanda suficiente para operar voos regulares?  Por que não deu certo no passado? A proximidade com aeroportos vizinhos pode afetar a demanda de passageiros? Quanto custa viajar hoje?Estes são alguns dos questionamentos mais frequentes que norteiam a dúvida sobre a real viabilidade de operação de voos comerciais no aeroporto Comandante Kraemer”, cita.

A resposta para a primeira pergunta, segundo Menegazzo, é respondida partindo do cenário nacional, já citado nos fatores que corroboram para a retomada dos voos. Porém, ele foca esta questão, partindo do contexto local. “Em 2016, mesmo sendo um ano marcado pela crise econômica, os aeroportos de Chapecó e Passo Fundo movimentaram juntos mais de 600 mil passageiros (Chapecó movimenta cerca de 1, 2 mil usuários por dia) tendo Erechim como um dos principais fornecedores de passageiros em seus aeroportos, tendo São Paulo como principal rota, movimentação suficiente para Erechim operar uma rota direta”, destaca.

Voos particulares em Erechim:  35 aeronaves, 300 pousos e decolagens mensais

Segundo Menegazzo, Erechim só não movimenta mais passageiros pela inexistência da principal rota desejada (Porto Alegre) e pela dificuldade de acesso aos aeroportos vizinhos, fazendo com que a maioria dos passageiros da região opte muitas vezes por viajar de ônibus ou automóvel. “O tempo e o custo do deslocamento de carro (combustível, manutenção, estacionamento, risco de multas e acidentes e, em alguns casos, alimentação e hospedagem), são aspectos tão relevantes que diversos empresários do município preferem utilizar aeronave própria para viajar. Atualmente são 35 aeronaves que geram uma movimentação de aproximadamente 300 pousos e decolagens por mês no aeroporto Comandante Kraemer. Somados, os custos de deslocamento para acessar os aeroportos ou através de aeronaves privadas, pode ultrapassar a marca de R$ 6 milhões por ano pela falta de um aeroporto no município”, completa.

Estrutura do Aeroporto de Erechim

Para Menegazzo, a justificativa para o fato de voos regulares não terem dado certo no passado recente está ligada à qualidade e tamanho das aeronaves (a última que operou em Erechim tinha aviões com 19 assentos) que consequentemente tinham preços pouco atrativos, ou seja, que vão em direção contrária ao que buscam os passageiros de transporte aéreo. “A solução é seguir o conceito dos voos regionais existentes: operar com aeronaves de médio porte, permitindo assim preços de passagens acessíveis, combinando economia de tempo e custo, com conforto e segurança”, pontua.

Sobre a estrutura do aeroporto, o autor do estudo afirma que “para que um aeroporto regional tenha êxito, não há a necessidade de investimentos astronômicos. Embora seja necessária a ampliação do terminal de passageiros e da pista para pousos e decolagens, entre outras adequações mais simples, o bom estado de conservação do aeroporto Comandante Kramer permite o aproveitamento de quase toda sua estrutura atual, fator que facilita a viabilidade do projeto”, enfatiza, ao citar ainda a infraestrutura no entorno do aeroporto de Erechim como um grande diferencial.

Fomento na cadeia de turismo regional

Para justificar seu estudo e a defesa de que é viável a retomada dos voos, o autor da pesquisa elenca ainda o que considera diferenciais de Erechim, como a localização do município, ao levar em conta que um aeroporto atende a passageiros muito além da sua origem. “Erechim tem localização privilegiada, entre Chapecó e Passo Fundo, além de ser o município com aeroporto mais próximo das regiões de Concórdia e Joaçaba. No total, Erechim possui 1,2 milhão de habitantes a menos de duas horas de distância, sendo que 450 mil possuem o aeroporto de Erechim como o mais próximo”, destaca ao enfatizar que o traçado planejado da cidade oferece vantagem para o deslocamento entre o aeroporto e o centro, o que faz do Comandante Kraemer um dos aeroportos com acesso mais rápido, econômico e prático do país.

Neste sentido ele destaca ainda que o aeroporto de Erechim situa-se a apenas 100 metros da BR-153, principal rodovia de acesso ao município e rota de ligação entre RS e SC, fato que contribui para o acesso de passageiros dos municípios vizinhos até mesmo por linhas de ônibus rodoviários. “Além disso, o aeroporto de Erechim passaria a ser fundamental para o fomento do turismo regional, dada a sua proximidade especialmente à região das águas termais, destino de centenas de milhares de turistas do país inteiro e até do exterior. Assim se tornaria a principal via de acesso para turistas de regiões distantes – um mercado com grande potencial, mas ainda pouco explorado. Benefício que retornaria ao aeroporto a partir da maior movimentação de passageiros provocada pelo turismo”, finaliza.

Ao elencar indicadores socioeconômicos de Erechim e demais municípios próximos com aeroportos com voos regulares, Menegazzo destaca a logística como pilar para a geração de competitividade. “A retomada de voos comerciais proporcionaria uma significativa economia no custo e tempo de logística de passageiros além do aumento da segurança, conforto e praticidade a quem viaja. Além disso, a possiblidade da exploração do transporte de cargas também contribuiria significativamente para a competitividade da economia regional. O acesso facilitado através de um aeroporto também melhoraria as relações comerciais bem como a prospecção de novos negócios e desenvolvimento em todas as áreas”, afirma, complementando que a facilidade logística também é considerada como um dos fatores-chave para quem decide fixar moradia num determinado local. “Assim, a retomada de voos comerciais no aeroporto Comandante Kraemer torna-se um importante fator para a valorização da região, indutor de atratividade e desenvolvimento econômico, social e cultural, capaz de gerar benefícios até mesmo à população que não utiliza o transporte aéreo”, completa.

as. Analisando isto em conjunto, chega-se à conclusão de que o risco, somado a ineficiência do tempo e o custo é totalmente a favor do transporte aéreo e hoje as pessoas buscam praticidade. Elas até pagam mais para viajar bem e mais rápido”, afirma.

Necessidades para a viabilidade da retomada dos voos

De acordo com Menegazzo, a projeção de investimentos para as adaptações necessárias à retomada dos voos é de R$ 6 milhões a R$ 8 milhões. Estes valores seriam utilizados para adequações que envolvem desde a ampliação da pista de pousos e decolagens até melhorias no terminal de embarque e desembarque. O administrador do aeroporto de Erechim, Francisco Palhano, explica que a ampliação da pista seria de aproximadamente 500 metros, sendo que o local possui espaço para este aumento. Sobre as adequações do terminal de embarque ele ressalta que seria a instalação de itens operacionais, como porta detectora de metais, raio x, sala de rádio, além de equipamentos de solo, que seriam de responsabilidade da empresa aérea que vier a operar.

O estudo de Menegazzo aponta ainda o tipo de aeronave indicado para operação nestes voos, que seria a ATR-72, hoje utilizada em larga escala pela empresa Azul. A aeronave é de médio porte, tendo capacidade de transportar cerca de 70passageiros em viagens intermunicipais e interestaduais.  “Esta seria a opção tanto pela qualidade da aeronave, quanto pela sua capacidade, o que permitiria o trabalho com valores atrativos aos usuários dos voos”, justifica o autor da pesquisa.

O administrador do aeroporto vê com bons olhos o estudo de Menegazzo e salienta que há forte demanda em Erechim. “Mesmo a gente estando há todo este tempo sem voos comerciais, recebemos ligações diariamente de pessoas nos perguntando de horários, o que demonstra o grande interesse da população. Além disso, os aeroportos vizinhos recebem muitos passageiros de Erechim e região que, se tivessem opções no município, certamente recorreriam ao aeroporto de Erechim”, completa.

Origem dos investimentos

O Aeroporto de Erechim é federal, cedido ao Estado e administrado pelo município, conforme acordo de gestão. A Secretaria de Estado de Transportes explica que os recursos para pequenas melhorias nos aeroportos regionais são provenientes da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). Questionada sobre possiblidade de investimentos no aeródromo de Erechim, a pasta cita apenas que o governo do Estado enviou para o aeroporto em 2015 um carro contraincêndio tipo AC4 e destaca o fato de este estar contemplado no Programa de Investimentos em Logística (PIL Aeroportos) do governo federal,

Neste sentido, o programa propõe como investimento para o aeroporto de Erechim aaeronave de projeto categoria 3C (A319) operando com 80% peso máximo de decolagem, novo terminal de passageiros, ampliação de 140 metros e recuperação da pista de pousos, novo pátio de aeronaves, seção contraincêndio, além de novo acesso ao terminal.

Apesar disso, para a viabilização da retomada dos voos, Menegazzo defende em seu estudo investimento da iniciativa privada, ideia que é bem vista por entidades empresariais como a Associação Comercial, Cultural e Industrial de Erechim (Accie). Entretanto, o passo principal, segundo o presidente Claudionor Mores, é pressionar a vinda de recursos junto às esferas públicas federal, estadual e municipal. “O aeroporto é federal, cedido pelo estado e administrado pelo município, por isso vamos continuar insistindo nessas três esferas. Mas os empresários também estão conversando para contribuir”, ressaltou.

Mores também elogiou a iniciativa do estudo. “Essa pesquisa restaurou o nosso espírito de buscarmos a volta dos voos, porque pela sua profundidade, nos mostrou viabilidade técnica, economia e operacional e, assim, a possibilidade de termos pelo menos um voo de escala por um orçamento exequível. Estamos avançando nesta discussão por meio de reuniões técnicas. Termos esse voos abre novos horizontes para o empresariado local, facilitando tanto o deslocamento daqui para outras cidades, como também a vinda de clientes e fornecedores”, completou.

O presidente do Sindicato da Indústria da Construção e do Mobiliário de Erechim (Sinduscon), Gilmar Fiebig, além de ressaltar os aspectos positivos da retomada de voos, destaca que isso só será possível a partir da mobilização da comunidade. “Acho que Erechim está perdendo espaço para outros municípios por não ter voos de escala. Ficamos por muito tempo esperando que as coisas se resolvam apenas por meios políticos, o que falta mesmo é a comunidade se reunir e fazer um planejamento para execução do que precisa, como a ampliação da pista, por exemplo, o que não é um custo tão alto. As classes empresariais precisam se reunir, buscar também as prefeituras da região para que nós mesmos possamos ir fazendo o necessário. Acredito que como consequência disso, mais recursos virão. Não vamos avançar se ficarmos esperando por vias políticas”, completou.

Já o secretário de Administração da prefeitura de Erechim, Valdir Farina, reitera a contribuição do poder público municipal para a viabilidade da retomada dos voos. “A administração municipal vê de forma positiva que possamos ter voos novamente no município. O apoio da prefeitura de Erechim e logístico e institucional. Claro que poderemos contribuir de alguma forma em termos de materiais, por exemplo, mas em relação a recursos estaremos limitados, por isso buscaremos auxiliar institucional e logisticamente, até porque é de grande interesse para o crescimento do município”, concluiu.

 

Rapidez para os voos do Canarinho

A retomada dos voosno Aeroporto Comandante Kraemer também pode beneficiar o Ypiranga Futebol Clube. O responsável pela logística do clube, Ricardo Figini, elenca a economia de tempo de deslocamento como um fator positivo ao time em vários aspectos. “Hoje quando temos jogos em locais distantes, precisamos só para nos deslocar até um aeroporto, cerca de duas horas. Além disso, em geral temos que sair em viagem dois dias antes dos jogos. Se tivéssemos voos em Erechim, nossa organização seria diferente, pois ganharíamos tempo de viagem e, consequentemente, de treinamento”, pontua.

O presidente do clube Adilson Stankiewicz, reforça o posicionamento, destacando que o ganho de tempo beneficiaria não somente o clube de Erechim, mas também os que vêm de fora para jogar com o time da casa. “Sem dúvidas seria um avanço e facilitaria muito o deslocamento para a participação nos campeonatos”, pondera.

 

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