Futebol de salão, datilografar, bronzeador...
Um dos meus passatempos preferidos é sair com meus filhos e usar termos e expressões “das antigas nas conversas”. Às vezes eles ficam confusos, noutras, indignados diante da insistência em adotar um palavreado antiquado que, segundo eles, revela a minha idade. Coisa, aliás, que não me incomoda nem um pouco.
Gosto de dizer à Laura e ao Henrique que muitos estagiários que passaram – e passam – pela minha vida até hoje ficam admirados com a minha agilidade manual no computador.
- Eles ficam impressionados e me perguntam como eu consigo “datilografar” com tanta rapidez! – digo à gurizada.
Entre risos e olhares zombeteiros, insistem em me corrigir:
- Pai, para com isso! Tu sabes que há muitos anos não se usa o termo “datilografar. O certo é digitar – repetem. Em troca, dou debochadas risadas e juro me emendar.
“Futebol de salão” ao invés de futsal, “desenho animado” ao invés de animação (filmes do cinema e tevê) e” salva-vidas” no lugar de guarda-vidas são outras expressões que emprego com frequência. Algumas, de verdade, já estão incorporadas ao meu linguajar. Outras, como escrevi acima, são deboches, gozação e um pouco de nostalgia “dos bons tempos”.
Este ano, minha filha “me convidou” para acompanhá-la até uma farmácia no centro de Capão da Canoa. Detalhe: sempre que um filho “convida” o pai para ir a um estabelecimento comercial... e certo que haverá “desembolso de numerário”, ou seja, o velho vai gastar alguns pilas.
Enquanto ela fazia o rancho, com produtos de beleza, vitaminas e medicamentos, eu zanzava entre os corredores para passar o tempo. Quando a Laura se aproximou para irmos ao caixa, aproveitei a deixa, chamei uma atendente e perguntei:
- Moça, por favor, onde é a prateleira de “bronzeadores”?
Minha acompanhante me fulminou com um olhar de fazer murchar um pé de cactos em pleno deserto.
- Por favor pai! Não me faz passar vergonha. O certo é “protetor” e não “bronzeador”, coisa que não se usa desde antes de eu nascer!
Eu, como sempre, levei de boa. Constrangimento mesmo quem passou foi a moça de avental branco que me mostrou o corredor dos protetores. Ela não sabia se ria (do cliente) ou mantinha a pose de respeitosa. No final, nós três caímos na gargalhada.