O matemático
Semana passada veio à minha livraria um cliente que há tempos não aparecia. Andava sumido, só que não! Em verdade o velhote teve uma experiência muito curiosa. Quase morreu. Isso mesmo, uma EQM – experiência de quase morte. Uma história tão interessante que resolvi contá-la. Mas antes, é preciso contextualizar um pouco. Do contrário o leitor não conseguirá imaginar os dramas existenciais pelos quais este sujeito tem passado.
O vivente
Seu Manel, que é como pede para ser chamado, é uma daquelas pessoas emblemáticas. Como ele há de existir outros por aí. De certeza. Embora pareçam únicos, são cartesianos, retos, previsíveis, o que torna impossível não lembrá-los. É o tipo de pessoa “quadrada”, quase um cubo humano. O Manel é assim, metódico, maniático, uma espécie de Jack Nicholson do filme Melhor Impossível. Quiçá tem ou teve algum transtorno ou doença mental de nascença, o que certamente inspirou o diretor a fazer aquele filme. Se não o viu, vale a pena ver.
O tal Manel
Numa das vezes em que esteve comigo a beber um café, reparei que não quis utilizar a pazinha de madeira para dissolver o açúcar. Me pediu uma colher de inox e que eu a lavasse antes, na sua frente. Por aí já dá para sentir o naipe do sujeito. Conversador, mas não muito, me contou que tinha tudo muito organizado na vida. A roupa dele demonstrava isso. Parecia combinar tudo, ainda que de mau gosto. Não havia uma ruga qualquer, o que me fazia crer que o velhote era fã de um ferro de passar. Quando foi pagar a conta, reparei que o dinheiro estava todo separado e, junto aos cinquenta centavos de euro para pagar o café, havia uma anotação: café, o dia, Livraria Tertúlia, tudo com uma caligrafia incrível. Fiquei impressionado. Perguntei – e não devia ter feito – por que razão ele tinha aquilo anotado, se o dinheiro era um bem fungível. Por sorte, entrou um cliente que o deixou desconfiado e acabei ficando sem a resposta.
A volta
Manel costumava vir sempre no mesmo dia e horário, mas não todas as semanas. Reparei isso porque costumava ser quando havia pouco movimento. Até fui conferir isso no sistema. Chegava quieto, no começo falava pouco, se ambientava e só depois puxava conversa. Sempre os mesmos assuntos e sobre uma portugalidade que eu desconhecia. Devia ser de propósito, só pode. Mas o tempo passou, o final de ano chegou e o tal Manel não mais apareceu. Tinha esquecido dele, até que na última semana ressurgiu, estranho, assustado. Parecia um pouco revoltado. Já não trajava mais a mesma roupa elegante das décadas passadas. Parecia ter sofrido algum trauma. Foi então que descobri que teve uma experiência de quase morte. Foi o que presumi.
O relato
Manel chegou para mim e disse: “Não cá vim mais porque fiquei doente e morri! Morri mas estou vivo!” Respondi, mas como pode isso Seu Manel? “Pois é meu filho. Pode sim. Fiquei uns dias hospitalizado, em coma. Durante esse tempo fui para um lugar que era como o céu. Foi o que me disseram lá (no céu), mas aquilo parecia muito mais o inferno”. Ele estava confuso. Indaguei a razão, ao que o velhote me respondeu que “do lado de lá é tudo diferente. Não tem essa coisa de ficar organizando tudo, preparando tudo. Lá não tem a bagunça daqui. Não tem conta para pagar, mas eles querem mesmo é saber sobre a nossa vida. São uns intrometidos aqueles lá! Ninguém me perguntou da minha aposentadoria, do meu dinheiro no banco e de todo o esforço que fiz na vida para aqui chegar. Deve ser por isso que me mandaram de volta. E agora estou aqui, desse jeito!”, concluiu, perdido em seus próprios pensamentos que antes eram tão firmes, previsíveis e repetitivos.
Daqui em diante
Seu Manel, se já não era doido, ficou louco de vez. Era fácil notar o desgosto implantado em seu olhar de vivo morto. Quiçá, o ar de arrependimento vinha por ter sido tão matemático durante toda sua vida. Uma conta que, ao fim e ao cabo, não o levou a lugar algum. Viúvo há uns trinta anos, sem filhos, disse que não encontrou a mulher no céu, mas acredita ter visto “gente conhecida” e que faz questão de esquecer. “Já não lembrava deles quando vivo, não vai ser agora”, retrucou. Não me disse quem eram. Também não tive coragem de perguntar. Seja como for, depois de ouvir essa história de maluco, que muito me pareceu verdadeira, cheguei à conclusão de que muito do que se faz aqui na Terra, como sendo uma “vida certinha” não serve mesmo para nada. Ao coitado do Manel, tão organizado que foi a vida toda, foi dada uma nova chance, mas sinceramente não sei se ele vai querer aprender a viver nesse tempo que lhe resta.