Telefone mudo
Outro dia reparei o quanto nos tornamos exigentes com a própria vida. Me dei conta de como o tempo escorre entre os dedos e do quanto mudamos. Fiquei com uma sensação de que “antigamente” conseguíamos fazer muito mais coisas e que os dias tinham outro rendimento. Sobrava tempo até para falar com os amigos. E claro, quando expressões como “antigamente”, “naquele tempo”, “na minha época” surgem em nosso vocabulário, é sinal de estamos fazendo mau uso do nosso tempo. Traduzindo: estamos velhos.
Telefone
Há trinta anos, quem tinha uma linha telefônica podia se considerar um sujeito abonado. Quem tinha duas, então, era considerado rico. A espera pelo serviço costumava demorar anos e uma linha de celular chegava a custar algo em torno de dois mil e quinhentos dólares. E há quem diga que aquele tempo é que era bom. Será? Hoje, nem é preciso sair de casa para receber ofertas e mais ofertas de serviço de telefonia. Chegamos ao ponto de não mais ter telefone fixo, mas o mais engraçado disso tudo é que dificilmente fazemos ligações telefônicas. É tudo na base da mensagem, de texto ou de áudio. Afinal, avançamos ou retrocedemos?
Alô?
Lembro bem quando uma voz soprava ao meu ouvido e dizia, assim, no meio da tarde: liga pro teu amigo lá de Erechim! Com as facilidades do celular, era possível ligar ou atender ao “chamado” de qualquer lugar, desde que houvesse sinal, é claro. Quem ainda era refém da CRT, aquela das nostálgicas centrais com cabines telefônicas, onde fazíamos fila para… telefonar. Quase me perdi! Voltando… quem dependia do telefone fixo ligava sem medo, mas sempre com aquele frio na barriga. Será que ela vai atender? Quem nunca mentalizou, rogando para que a pessoa estivesse em casa na hora da ligação?
Naquele tempo
Não tem jeito. É preciso revisitar o passado. Então… “naquele tempo”, fazer uma chamada telefônica a um amigo distante guardava uma energia comparável à do recebimento de uma carta. Só mesmo quando a pessoa não estava em casa (ou no trabalho) é que a ligação dava deserta. Ouvir a campainha tocar era sinal de que alguém estava à nossa procura. Corríamos para atender, pois se demorássemos, não saberíamos quem tinha ligado. Mas hoje não. As coisas mudaram e as pessoas, com o telefone na mão, onde quer que estejam, só aceitam atender a ligação quando lhes dá realmente vontade. E quando é que dá? Para piorar, podemos ver o nome de quem liga na tela e, por conta das nossas “exigências”, escolhemos se vamos atender ou não. Se não conhecemos o número, melhor não atender, é o que pensamos. Somos realmente muito exigentes, tão importantes quanto o Papa Leão. Somos finalmente VIPs.
Mensagens
Curioso é perceber que, o que se passou com as chamadas telefônicas, também está a passar com as mensagens. Já nem digo as de SMS (comuns em Portugal), me refiro às de whatsapp. São tantas num mesmo dia que, por vezes, esquecemos de responder. E assim caminhamos, como se houvesse um afastamento paradoxal, do passado e das pessoas que estimamos. Tornamo-nos tão exigentes com a vida, com o nosso tempo, que passamos a bloquear as comunicações para “que não nos atrapalhem”. E quando mandamos mensagem - porque ligar já é coisa de gente velha - deixamos de fazer aquela conexão, quase que espiritual, com as pessoas que mais gostamos. O que vejo - e sinto - é que caminhamos numa espiral de isolamento, capaz de transformar a vontade de conversar com alguém em algo inoportuno. A que ponto chegamos! Somos realmente um bando de egoístas, que na senda da evolução, caminhamos nas vias da solidão.